Fagoemia

Há uns dias a Lelex encaminhou um email que o Márcio Jr. enviou pra uma lista, com um link para um artigo (PDF) que ele escreveu sobre "Digitofagia e Digitoemia". Achei bem interessante. Ele coloca uma distinção que eu não conhecia, entre sociedade antropoêmicas e sociedades antropofágicas:

Claude Lévi-Strauss faz a distinção entre dois tipos de sociedade, as que praticam a antropofagia — pois acreditam que a absorção de certos indivíduos detentores de forças temíveis é a única forma de neutralizá-las aproveitando-lhes a energia, tanto efetivamente quanto simbolicamente — e aquelas que praticam a antropoemia — e diante do mesmo problema escolhem como solução a expulsão do corpo social, mantendo temporária ou definitivamente isolados, sem contato com a “humanidade”, os seres e grupos temidos, trancafiados em “reservas territoriais”. Dada a situação em que nos encontramos podemos supor que nossa sociedade é antropoêmica ao invés de antropofágica e para isso basta olharmos para a situação de nossas periferias e o crescimento da população carcerária.

Achei bastante relevante pra relativizar essa coisa que muitos temos de associar tudo que vem do Brasil à antropofagia. É uma generalização errônea tratar o Brasil todo com oantropofágico. Mas ainda assim, também discordo da generalização contrária. Respondi direto pro Márcio:

... não conhecia essa dicotomia entre fagia x emia, achei bem interessante. Eu costumo usar bastante a imagem da antropofagia quando falo de Brasil, e faz sentido questionar isso. Talvez generalizar "a cultura brasileira" como antropofágica seja forçar muito a barra, mas acho que fazer fazes o mesmo pro outro lado, quando falas que "nossa sociedade é antropoêmica". Não tinha
pensado dessa forma ainda, mas acho difícil generalizar. Eu passei os últimos 11 meses na Europa (volto mês que vem), e a diferença é muito grande aqui, por exemplo, na questão da imigração. Totalmente antropoêmica - quanto mais deixar os imigrantes em guetos e sem respiração, melhor. Um autor espanhol, David de Ugarte, chegou a atribuir parte das causas do atentado em Madrid há alguns anos ao fechamento da sociedade espanhola. Nisso, eu gosto de acreditar que o Brasil tem algumas coisas a mostrar. Mas pode ser só, como chamam em inglês, wishful thinking.

Interessante é que eu tava lendo ontem um trecho da tese do Pajé, que ele deve estar terminando daqui a pouco, e ele levanta a crítica a todo o cenário de mídia tática como sendo, em outras palavras, o desvio previsto no sistema, a Zyon que perpetua a Matrix. A questão maior talvez seja como agir no paradoxo: se a própria resistência é reforço sistêmico, como é que se quebra o ciclo?

De qualquer forma, eu acredito que existe um outro lado, e talvez uma outra possibilidade de crítica. Na real, talvez o teu posicionamento nesse artigo assuma uma forma antropoêmica (precisamos renunciar ao Estado), mas acho que também existe uma forma antropofágica de criticar. Se o inimigo está em toda a parte, como é que se oferece resistência (e re-existência)?

ele respondeu:

quanto a e "emia", o Estado isola, controla, gerencia os corpos e exclui. essas são práticas antropoemicas. o que eu ressalto ali e procuro fazer na minha dissertação é demonstrar que a fagia pode na verdade ser emia, existe em possibilidade e não podemos deixar de pensar nisso quando nos posicionamos e tudo mais. pois do contrário podemos ser antropoemicos e sequer perceber; saca?

não estou determinando e dizendo a "mídia tática é antropoemica", mas que essa possibilidade existe e frente a um Estado que perpretua essa prática há séculos precisamos tomar muito cuidado, ao formular nossas críticas e nos posicionarmos.

quando digo nossa sociedade é antropoemica quero dizer pelo fato de observar as condições em que a população mais pobre se encontra em metrópoles como são paulo ou rio. completamente isoladas. indo para a prisão aos milhares todos os anos, racismo crescente, e isso sinto na pele, manicômios, hospitais dias, policiamento crescente de todos os aspectos da vida. e podemos perceber o quanto as tais "novas tecnologias" agregam em eficiência nessas práticas. mas sempre lembrando que para uma prática de poder existe a possibilidade de emergência de um contrapoder.

eu, existencialmente prefiro mapear as capturas e descobrir onde posso ser/ou fui capturado e repensar minhas práticas. mapeamento das resistências quem faz é policia.

eu respondi outra vez, continuando na onda das novas tecnologias:

e tem outro lado também das novas tecnologias que eu tava conversando com uma amiga hoje: será que a vantagem de conseguir conversar com pessoas com interesses em comum do outro lado do mundo não vem com o custo de as pessoas deixarem de ter uma vivência social direta com a diferença, com o teu vizinho que não necessariamente tem os mesmos interesses? será que à medida que a gente aprende a conversar com alguém no japão não estamos desaprendendo a negociar com a diferença em âmbito local?

 

Considero irrelevante na

Considero irrelevante na minha vida saber se somos "fágicos" ou "êmicos" coletivamente. Eu busco tratar cada pessoa autonomamente e contextualizando-a naquele instante.

Tem instantes de "por pra dentro" e instantes de "por pra fora", não? Se há um caminho do meio nisso, e ele pode ser transformado em uma arte, cabe a cada um saber se vale a pena, não?

Quanto ao Estado brasileiro ser fágico ou êmico, cito aqui o Daniel Poeira, de BH, que diz: "a única coisa que consegue explicar a existência de um Estado pra mim é 'medo de apanhar'". Ou seja, faz diferença entender, ou faz diferença tomar parte e mudá-lo?

Pensar é causar, mas alguns pensamentos causam é porra nenhuma.

saber e mudar

já respondi em pvt, mas só pra deixar aqui minha opinião. "saber" pode ser irrelevante, mas me chamou a atenção o fato de que o texto me fez pensar em muita gente que prega a "fagia", mas pratica a "emia". contrapontos sempre podem ser úteis para o aprendizado, fio. dialogando ironicamente, daquele jeito.

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