Social futures

A sessão de abertura da conferência de Tecnologia Social do Futuresonic foi certamente uma das mais interessantes. Eram 6 pessoas distribuídas em dois sofás no palco: Matt Jones, James Wallbank, Shannon Spanhake, Ravikant, Gerd Leonhard, Chris Heathcote. Cada 1 falava por alguns minutos, e depois eu e mais 2 painelistas - Beryl Graham e Andrew Woolard - fazíamos perguntas ou tecíamos comentários. A sessão foi apresentada pelo diretor da conferência Drew Hemment, e pautada por questões levantadas por Matt Locke e Aleks Krotoski. Além dessa dúzia de pessoas, olhe só, ainda tinha gente na platéia que ao final podia pegar os microfones e continuar o debate.
Abaixo as anotações do meu caderno. Desculpem os equívocos e incompletudes.
Matt Jones / Dopplr
Friending can be harmful.
Autistic language.
Language of relationships is limited - we ought to think in terms of transactions.
Can we kill friending?

Dos comentários: projecto familiar strangers, que coleta ids de bluetooth e analisa padrões. "My frienemies".
Eu comentei alguma coisa na linha "claro que friending é overstated, mas nem tudo é transação. friending é identidade, e pode trazer benefícios a um monte de gente". Ou algo assim.

James Wallbank
Social networking is crap /// Opportunity cost - enquanto o pessoal tá atualizando o facebook, tá perdendo a chance de descer no pub e conhecer gente de verdade. Antigamente, na época dos BBSs, existia um componente de localidade - alcance local, pessoas que se conheciam. O nível de interação era muito maior. Quando a internet chegou, a comunidade se esvaziou.
As pessoas não desenvolvem as habilidades necessárias para networking 'real'. Não sabem participar, só sabem ser consumidorxs. "O que eu pago? / O que eu levo?"
Como você pesquisa na internet sobre coisas que você nem sabe que não sabe? "Surprise me"??
Low tech: Mural. Cartões. Esferográficas.
Chamou a atenção para quando o Matt Jones falou em "termos autistas", porque 20% dos usuários do Access Space são autistas*. Evitar preconceito.

Dos comentários: Como mudar, escalar? Mobilizar, não monetizar a comunidade.
Eu chamei a atenção para o fato de que muitas vezes o pessoal não tá trocando tempo de pub pela internet, mas tempo de TV, e que isso pode ser interessante de outras formas.

Shannon Spanhake
Califórnia. Inovadora. Inventora.
Estender o que o James falou. Tijuana, monitores de poluição conectados a celulares. As comunidades migram, não são estáticas. Pasagens "ilegais" da fronteira. Comunidades também existem na fronteira.

Nessa eu perdi atenção e não perguntei nada. Podia ter questionado a questão da permeabilidade seletiva das fronteiras em relação ao controle de conhecimento: fronteira de Tijuana, RIAA, tem alguma relação aí. Mas enfim, deixei pra lá.

Ravikant
Physical is great.
A blogosfera em hindi é herdeira de uma tradição de revistas em hindi, que é uma afirmação tanto cultural quanto política. Esforço coletivo. Criar uma cena blogueira, mais do que só um blog.
Displacement led to blogging.
O Hindi foi desenvolvido de forma literária. No processo, línguas menores foram esquecidas. Agora, essas outras línguas podem voltar.
Os blogueiros também são wikipedieiros.
Tradição oral. Espaço público.

Meu comentário foi na onda da tradição literária em hindi, em contraste com o que a gente tem no Brasil, uma cultura muito conversacional e em rede, mas à qual às vezes falta profundidade. Em resposta, ele chegou a dizer que a Índia é literária demais, o que me pareceu uma afirmação simpática, dadas as condições.

Gerd Leonhard
(falei mais sobre a posterior palestra dele no post genérico sobre o futuresonic).
Palestrante profissional. Fala alto.
James - business case for the Amish.
Eletricidade, imprensa, TV são uma merda. A TV mantém as pessoas isoladas. Mas não é possível eliminar. We have to deal with it.
Em alguns anos, 'internet business' won't matter anymore.
Old world - friends.
New kind of friends.
It is only the tip of the iceberg.
Internet chega a 20% da população. Dessas, 10% com bandalarga. Ou seja, 2% da população "está conectada".
Future will bing ultimate connectivity.
Narrowcasting.
Web 1.0: Receive noise
Web 2.0: Send noise
Web 3.0: Filter noise
Web 4.0: Smart noise // being deaf
End of control.
We learn from what happened before.

Comentei com ele que sobre narrowcasting e essa divisão entre web 1, 2, 3 e 4 ele estava muito fechado na idéia de "conteúdo", e que isso é uma perspectiva BEM limitada. Ele falou que eu não entendi e mudou de assunto.

Chris Heathcote - Nokia
Não é uma celebridade da internet. Tem um blog.
Em 1996, foi reconhecido por conta de uma foto online de uma balada. "Are you Chris?" Situação estranha.
Há pouco, foi reconhecido em Tokyo por conta dos links que mandou no del.icio.us.
Redes sociais não existem só na internet.
Temos que trabalhar em uma nova ética.

Fiz uma pergunta sacana: como esse tipo de percepção, de rede, de limites confusos entre particular e coletivo, influencia no teu trabalho na Nokia? Adicionei aquele argumento de que as metáforas de uso das interfaces em geral são bem limitadas, principalmente em computadores - no Brasil, "Desktop", Lixeira, Arquivo e Pasta são analogias bem inúteis. Ele deu uma enrolada e desviou.

Notas dispersas do debate depois:

Can we disappear? (acho que quem perguntou foi a Alek)

Gerd Leonhard: in the future we will pay for privacy. Música vai ser grátis em troca de dados pessoais. Para não ceder os dados, eu vou pagar.

Shannon: multiple personalities.

James: younger will abandon (a idéia de) privacy.

Quem? (acho que Matt Jones) Social communities - more effective. Permeable borders between private / public. Data Portability.

Matt Jones: EFF - sometimes ease of use is a bug.

James: we are using tools wrong, because they are built wrong. Paul says: misinformation age.

Gerd Leonhard: The virtual thing creates demand for the real thing. "Guitar hero" makes kids study guitar (eu não tenho certeza disso).

Alguém (talvez ainda o Leonhard): thank god people are adaptive. People blog and create a narrative.
Strategic DDA.People do use technologies 'the wrong way'. Rádio era pra ser P2P. Telefone era pra escutar música.
Chaoscillator.

Paulo Hartmann: comenta sobre James e BBSs. Fala do canal motoboy.

Alguém: sometimes conversations simply die. Create alternate infrastructure.

Ravikant: important thing we do is creating social spaces.

Tapio: temporal intimacy vs. sustaining relations >> 'online friending'.
Economies. Friending - links between profiles. Economies that evolve from that.

Gerd Leonhard: open connected infosystem. It is too early. We have to develop new skills. In a controlled society, these skills are unneeded.
* mais tarde no mesmo dia, à beira do balcão do Kro Bar, Dougald Hine comentou com James Wallbank que ouviu falar de uma pesquisa que dizia que entre os Amish não existem autistas. Faz pensar...

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Comments

India é raza tb

fff,

Os indianos do sarai eram especiais, tinha sim gente interessante, que produzia bastante textos questionado a rotação do méson-pi e a dissipação de energia do efeito coriolis. Mas mesmo no próprio cybermohalla tinha uma meia dúzia que escrevia bem, e uns 40 que só estavam ali pra passar o tempo e acessar a internet.

Tem livrarias em todos os cantos por lá, e nego vendendo paulo coelho na rua, acho natural se a gente pensar que eles tem 1.3 Bilhões de pessoas, e que talvez eles tenham a população do brasil fazendo alguma faculdade. Infelizmente não convivi muito com "iletrados", os indianos que nos cercavam nos "poupavam" desse contato,  e quando furavamos o bloqueio eles não falavam inglês.

Sei lá, quando eu fui pra lá, levei justamente essa idéia que você tem, e demorou bastante pra enchergar que eu convivia diariamente com uma elite intelectual... Cara, nunca havia participado de um coquetel até pisar em delhi :)

Quando voltei, nem deu pra tirar a pimenta da boca direito e voei pro maranhão, passei uma temporada com o MST, e lá pude ver que brasil  e india são muito parecidos, tanto na miséria quanto as elites. Ai a ficha caiu, somos todos farinhas do mesmo saco.

ff,importantes

ff,

importantes meditações.
interessante a reflexão surgida do papo do indiano. acho que a profundidade existe sim e ta em textos como este seu e outros que conhecemos...

->Gerd Leonhard: in the future we will pay for privacy. Música vai ser grátis em troca de dados pessoais. Para não ceder os dados, eu vou pagar.

future??? isso não é a tal da web2.0?

Rede social acho que não é nada disso de trocar dados pessoais por "bens culturais de consumo".  É gente aprendendo a cuidar de servidor, como gente que sabe fazer a laje da propria casa. a gente chega lá...

riseup, aletta... o resto é no "pub" mesmo, e alias o grande lance é o "pub" migrar novamente pras casas das pessoas (o "pvt" como "pub").

pois

fala glerm... depois de conviver um pouco com xs indianxs do sarai, mesmo sabendo que comparação é sempre cagada, não tenho como dizer que a gente tem em geral uma produção aprofundada como a delxs. claro que tem um monte de gente escrevendo no Brasil. eu ainda tô longe de ser um bom exemplo, mas tem bastante gente boa produzindo, e bastante. só que a onda é que na Índia dá a impressão que todo mundo escreve, e escreve bem. acho que tem uma coisa de domínio de um certo protocolo, tem a base histórica do sistema de ensino do Império Britânico, tem o jeito que eles se apropriaram da linguagem como ferramenta de resistência. por exemplo, eu fiquei besta ao saber que pirataria de livros é um grande negócio na Índia. a galera lê, vira mercado mesmo. isso tudo acho que leva a um maior domínio de um código específico, uma lógica específica de argumentação que a gente, em geral, não tem. não acho que isso seja necessariamente uma desvantagem - o outro lado é que lá tem bastante elocubração e retórica mas pouca ação. também não esqueço a cara de espanto da menina quando eu comentei que a gente já tinha montado uns 10 laboratórios temporários...

é raro eu pagar pau pra alguém, mas xs indianxs ainda me espantam.

a afirmação do Leonhard, é uma dessas em que ele tenta ser "clever". começa dizendo: "no futuro a música vai ser grátis!" e depois sai com essa. ele quer virar palestrante bem-pago, daquele jeito.

transformar o pub em privada, é o caminho ;)

o assunto tá esquentando...

... e me parece que o caldo é interessante.

 algumas cutucadas:

 - eu, cada vez mais, venho me convencendo que um dos caminhos que valem a pena ser trilhados é a toada de como conversamos no presencial, de como nos encontramos e de como aproveitamos esse tempo. tipo, a gente perde horas em reuniões improdutivas, em encontros que cadenciam poucas conversas e as questões de tempo e localização de todo mundo sempre acabam pegando, na real...
 - a inteligência coletiva tá aí, basta saber olhar. o brasil nem é pior ou melhor, pq. os critérios acabam sendo muito mais subjetivos do que parece. eu acho que a gente ainda tem uma arrogância que está serenando nos últimos, mas ainda que ainda busca criar formas de provar que se é melhor. o fato é que a cultura é rica demais por aqui e tem muito improviso, pegada viral, tem contato, tem calor, tem aconchego, tem razão de estar junto que pode se encontrar de outra forma, de outros e diferentes jeitos...
 - a minha toada está sendo mapear as brechas dessas conversas e criar canais de energia que apenas ajudem a libertar a criatividade e aproveitar melhor o tempo de todo mundo...

 ;-)

conversando

essa coisa de reunião na real é pior em sampa do que no resto do país... mas a gente perde tempo, sim. bastante. uma parte é até saudável, perder tempo como oxigenação, como pausa pra reflexão. na real o que me incomoda um pouco é que essa perda de tempo e reflexão acaba acontecendo individualmente - documentar processo é válido, mas documentar questionamento conceitual é visto como perda de tempo. mesmo que a gente já tenha visto repetidas vezes que ações baseadas só em produtividade podem levar a nada... não sei, fica a questão de como articular essa facilidade de fazer e essa gana de comentar/conversar, mas ainda assim conseguir propor um aprofundamento conceitual e entender a fundo os becos onde a gente se mete.