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Esse site é um agregador de coisas que eu escrevo, produzo, leio e acesso. Com o tempo eu vou organizar as coisas direitinho por aqui.

Bio

Contando a história da minha vida, wiki-style

CurriculumVitae

Eu Felipe Fonseca é pesquisador e articulador de projetos relacionados a produção colaborativa, mídia independente, software livre e apropriação crítica de tecnologia.

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O que eu tenho feito...

Palestras, debates, painéis, etc.

Mobilefest '09

MIS, São Paulo, nov 2009 - website.

Simpósio Internacional de Arte Contemporânea

Paço das Artes, São Paulo, out 2009 - website.

Relato aqui.

Paralelo

MIS, São Paulo, abr 2009 - website.

Relatos aqui.

Wintercamp

Studio K, Amsterdam, mar 2009 - website.

Relatos aqui.

Campus Party 2009

Centro de Convenções Imigrantes, São Paulo, jan 2009

Brazilian Media Ecologies

Imperial College, Londres, Reino Unido, mai 2008

Apresentação sobre MetaReciclagem, Submidialogia, DesCentro e o contexto brasileiro como parte da série Systems of Learning.

Futuresonic

Manchester, Reino Unido, mai 2008 - website

Relatos publicados aqui.

Mercado de Intercambios de Conocimientos

CCCB, Barcelona, Espanha, abr 2008

Apresentação sobre redes de criatividade. Relato aqui.

AV/BR

Medialab Prado, Madrid, Espanha, fev 2008 - website

Apresentação sobre criação colaborativa e tecnologia social no Brasil.

Transmediale

Haus der Kulturen der Welt, Berlim, Alemanha, jan 2008 - website

Debate Web3 - Conspiring to keep the net public.

Picnic Network - (un)Common Ground

Amsterdam, Países Baixos, set 2007 - website

Apresentação "7 unstable definitions on MetaReciclagem".

Pedagogical Faultlines

Amsterdam, Países Baixos, set 2007 - website

Apresentação "MetaReciclagem and Paulo Freire".

Cásper Líbero - Pós-graduação em comunicação

São Paulo, mar 2007

Palestra sobre Metareciclagem na disciplina de Sérgio Amadeu - "Práticas colaborativas: web 2.0 e P2P".

Shift

Lisboa, Portugal, out 2006 - website

Palestra "Digital Culture - The Brazilian Experience".

Wizards of OS 4

Columbia Halle, Berlim, Alemanha, set 2006 - website

Painel "Brazil, free culture nation".

Quinta Oficina de Inclusão Digital

PUC-RS, Porto Alegre, jun 2006

Mesa-Redonda: "Reciclagem X MetaReciclagem".

Incommunicado

De Balie, Amsterdam, Holanda, jun 2005 - website

Workshop: FLOSS in ICT4D.

Alt Law Forum

Bangalore, Índia, nov 2004

Apresentação: "MetaReciclagem".

CiberArte - I encontro interdisciplinar de projetos em ciberarte: das psicogeografias ao software livre 

Senac Santo Amaro - São Paulo - jun 2004

Debate: Software Livre.

DebConf

SESC Campestre, Porto Alegre, jun 2004

Apresentação da MetaReciclagem para o painel Debian-NP, com Dalton Martins.

Tecnologia Social

Senac Lapa, São Paulo, fev 2004

Palestra inaugural para alunos de tecnologia.

Com.com - I Encontro de Comunicação Comunitária e Livre

Itapeva, dez 2003

ECA-USP

São Paulo, nov 2003

Palestra sobre Comunidades Online e Colaboração, com Andre Passamani, para estudantes de comunicação.

Cybercultura 2.0

Senac Lapa - Sao Paulo - nov 2003

Mesa redonda "A cultura brasileira como uma cultura hacker", com Hernani Dimantas, moderada por Rita de Olveira.

Next5Minutes

Amsterdam, Holanda, set 2003

FILE Symposium 2003

São Paulo, ago 2003

Mesa-redonda sobre políticas digitais, com Giseli Vasconcelos, Ricardo Rosas e Pablo Ortellado.

MetaEvento

Ação Educativa, São Paulo, out 2002

Mesa-redonda sobre projetos libertários, ação coletiva e CopyLeft, com Roberto Bui, Ricardo Rosas, Marcelo Barbão, Drica Veloso e Tati Wells.

Cursos, oficinas e workshops realizados

LaMiMe - Laboratório de Mídias MetaRecicladas.

Sesc Av. Paulista, São Paulo, jan 2007 - website

Oficinas conceituais sobre MetaReciclagem.

Low-tech

Sesc Av. Paulista, São Paulo, dez 2006

Oficina sobre apropriação crítica de tecnologia e montagem de pianão reciclado.

Onda Cidadã

Itaú Cultural, São Paulo, jun 2006

Oficina Ciber-reciclagem: como organizar um esporo de MetaReciclagem

5a Oficina de Inclusão Digital

PUC-RS, Porto Alegre, jun 2006

Oficina "Se Joga Na Rede".

Curso Online "Fundamentos de MetaReciclagem"

abr 2006

Elaboração de material para curso on-line a ser aplicado nas Casas Brasil.

Curso "Colaboração e software livre"

LIDEC, Escola do Futuro, São Paulo, mar 2006

Curso de Formação em Educação Democrática

Escola Lumiar, São Paulo, nov 2005

Palestra - A cultura hacker e a Gestão democrática do Conhecimento.

Tecnologia Social

IP, Rio de Janeiro, abr 2004 - website

Oficina sobre tecnologia social.

Colaborasampa

Telecentro do Jardim Copacabana, São Paulo, set 2004

Workshop sobre colaboração online para monitores de telecentros, com Hernani Dimantas e Rossana Fischer

Festival Mídia Tática Brasil

Telecentro Cidade Tiradentes, São Paulo, mar 2003

Oficina "Colaboração Mediada pela Internet"

Participação em outros eventos

Participação em discussões abertas e colunismo social em geral.

Upgrade!Salvador

Salvador, mar 2007 - website

Barcamp SP

São Paulo, mar 2007 - website

iSummit 2006

Rio de Janeiro, jun 2006 - website

Hacklab Immersion

IP, Rio de Janeiro, set 2005 - website

V FISLI - Fórum Internacional de Software Livre

PUC-RS, Porto Alegre, jun 2004

Mapping-session da Tactical Tech.

Segunda Oficina de Inclusão Digital

Brasília, mai 2003

Grupo de trabalho "Participação da sociedade em projetos de inclusão digital".

MidiaTaticaBrasil

Casa das Rosas, São Paulo, mar 2003

Exposição do projeto MetaReciclagem.

Vidas passadas

Interativa Consultoria

São Paulo, 2003

Criação e desenvolvimento de sistemas de gestão de conhecimento, conversação e documentação online, gerenciamento de projetos e outros.

Digital Networks

São Paulo, 2003

Projetos de tecnologia.

Reação Produtora Multimídia

São Paulo, 2001

Criação multimídia.

Facto Propaganda

Porto Alegre, 1999

Diretor de criação.

Estágio 21 Comunicação e Marketing

Porto Alegre, 1997/99

Diretor de Arte.

Cursos específicos

 

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Resume

Short

Felipe Fonseca is a brasilian media activist and researcher working in the fields of technological appropriation, low tech experimentation, free (livre) and open source multimedia software, open licensing and online collaboration.

Felipe is an articulator of projects such as MetaReciclagem, an emergent brasilian movement that gather people and projects related to the deconstruction of information technologies; DesCentro, a de-centralized research organisation; and Bricolabs, an international network of experimental labs. Felipe has acted also as a consultant for the brasilian Ministry of Culture in the Cultura Digital project, that brought critical ICT use for more than 600 cultural centers throughout Brasilian territory.

Since early 2008, Felipe works with weblab, building collaborative online networks and developing projects such as Lixo Eletrônico, a weblog about e-waste, and Mutirão da Gambiarra, a series of publications about the MetaReciclagem network.

NaMidia

* 18/04/2007: Meu PC e eu, um relacionamento íntimo * 11/04/2007, 21h00 Entrevista à BBC Radio 4: Open Source
Paul Bennun finds out how Free and Open Source software is making its impact felt across the world, fuelling development and saving small businesses millions of pounds.

Projetos

Projetos com os quais eu estou ou estive envolvido

Desvio // Weblab

Desde o início de 2008, estou trabalhando com o Weblab em diversos projetos. Entre eles, os projetos Acessa São Paulo e Acessa Escola, a Rede Humaniza SUS, o blog Lixo Eletrônico e a formação do núcleo experimental Desvio.

MetaReciclagem

MetaReciclagem é uma rede de pessoas em diferentes lugares que trabalham com uma perspectiva de desconstrução da tecnologia para a transformação social. Foi criada como ação de tecnologia do projeto Metá:Fora, como fruto de conversas entre eu, Dalton Martins, Hernani Dimantas, Daniel Pádua, Paulo Colacino, Felipe Albertão, TupiNambá, André Passamani, Bernardo Schepop, Drica Veloso, Stalker e mais um monte de gente. Uma parte dessa história é contada no Mutirão da Gambiarra.

Mais no site
http://metareciclagem.org

 

Mutirão da Gambiarra

O Mutirão da Gambiarra é um esforço coletivo para coleta e publicação da documentação gerada nos mais de cinco anos de existência da rede MetaReciclagem. A intenção é, após um período inicial de pesquisa, consolidar um pouco do aprendizado que tivemos, e tentar analisar mais a fundo as questões que ela levanta. O mutirão começa como um site desenvolvido em drupal e hospedado na aletta, a partir de um pedido de apoio encaminhado ao descentro.

Bricolabs

Bricolabs é uma rede que começou com uma conversa minha com o Rob van Kranenburg agitada pelo Paulo Hartmann depois do Mobilefest no fim de 2006. Ele queria montar uns workshops aqui em sampa sobre tecnologia, PD, arduinos, locative media, RFID e outras coisas. De eu contar o que rolou nos últimos anos entre MetaReciclagem, Cultura Digital e outras coisas, além da triangulação com Bronac Ferran, então no Arts Council do Reino Unido, foi começando a aparecer um modelo replicável de laboratório de experimentação em baixa tecnologia, baseado numa rede auto-organizada. Nos apropriamos do nome Bricolab, que veio do pessoal do Estilingue, em BH, e o Rob começou a chamar gente pra tomar parte na rede. A quantidade de respostas empolgadas e pessoas de todo o mundo topando participar de alguma forma foi e continua sendo impressionante.

A rede Bricolabs participou em março de 2009 do Wintercamp.

DesCentro

O des][centro é uma ação organizativa dentro de uma rede ampla de ativismo midiático e teoria crítica de comunicação, a partir da interação de diferentes grupos brasileiros com a plataforma de intercâmbio Waag-Sarai desde 2003. No âmbito desse intercâmbio, foram desenvolvidas três edições da conferência Submidialogia, em Campinas (2005), Olinda (2006) e Lençóis (2007), uma série de publicações online, além do debate continuado sobre o desenvolvimento de uma organização formalizada sem fins lucrativos para agenciar e viabilizar projetos em rede relacionados a educação midiática, arte eletrônica, teoria crítica e outros.

Eu participei da elaboração e formação inicial do DesCentro, e hoje faço parte do conselho consultivo, além de participar de alguns projetos.

Itinerâncias

Itinerâncias é uma linha de pesquisa recente, que tem a ver com intercâmbio, mobilidade, energia renovável, tecnologia embarcada. MetaReciclar o transporte, desconstruir a idéia de residência artística, cair na estrada. Criei outro blog pra ir coletando informação.

Tecnomagia

Tecnomagia é, por enquanto, uma linha de pesquisa investigando possíveis analogias entre o aprendizado de tecnologia e os diferentes arquétipos relacionados ao conhecimento mágico. Estou coletando informação sobre isso em outro blog que é agregado automaticamente aqui.

Oraculismo

Project Description

Oraculismo is an ongoing project willing to raise some critical issues related to information access and social dynamics, as well as pointing at analogies between magic and technologic learning. It brings a critical perspective about the ubiquity of internet access via wireless networks in urban contexts. Oraculismo intends to create wireless installations that are freely replicable, in order to create local experiences that can either be understood as environments for gaming, learning or information access. One of its methods is going further in the idea of de-mithifying technology, by attempting to create new myths that include the ideas of dynamic, social and collective exchange of information.

The public face of Oraculismo will consist of open wireless (wi-fi, 802.11x) networks that behave as shamanic totems or oracles, by interacting with visitors and offering negotiated information. These totems will be able to interact with people through different online tools, such as a chatterbot that, depending on the dialog, may point to a local network URL that can be accessed only once. Secrets, keywords, incremental stages for gaining access are elements to play with. Oraculismo will run on free software and will hopefully adopt alternatives for autonomous power supply.

Oraculismo needs little to start being developed. There are already plenty of alternatives offering free and open source software to manage wireless hotspots, as well as great examples of projects that offer free information in burn stations or similar artifacts. Doing the same with wireless networks is a step further in that direction, but on the other hand the negotiation is there to remind us that there are some kinds of learning in which it is not just a matter of just clicking and downloading bits.

Production Timeline and Project Budget

Developing oraculismo will be mostly a matter of dedicating time to put together technologies and information that are already available on the net, compiling them and creating a software and information package, as well as a hardware description, that can then be replicated anywhere. The idea is to put up prototypes of Oraculismo hidden in different parts of São Paulo. For that, we will need some money for equipment (almost useless detailing that more than one month in advance, for there is always a newer or cheaper piece of hardware).

Resume or Curriculum Vitae

Felipe Fonseca is a brazilian independent researcher working in the fields of technological appropriation, free culture and multimedia production. He has been an advisor for the brazilian Pontos de Cultura project, that has created hundreds of multimedia centers based on free and open source technology. Felipe is a member of the consulting board of the distributed organization DesCentro and one of the founders of the brazilian MetaReciclagem network. He is also a member of Bricolabs, an international network trying to put together people interested in critical appropriation of open* (hardware, software, knowledge, spectrum). He has been invited to speak in international conferences such as Transmediale, Wizards of OS, Next 5 Minutes, File, iSummit and others.

Work Samples

Rascunhos tecnomagia

Rascunhando

Rascunho geral tecnomágico

Indo por aqui...

 

 

eCommunita

eCommunita é uma empresa que emergiu da rede da MetaReciclagem no ABC paulista, evolução da Pirituba33. Sócixs eram Dalton Martins, Glauco Paiva e Tanya Stergiou. Trabalhei com eles no desenvolvimento de comunidades de prática, redes de inovação e produção colaborativa.

Cultura Digital

A Cultura Digital foi uma série de ações relacionadas a tecnologia no Ministério da Cultura do Brasil, que contava com várias inovações em políticas públicas de cultura: a implementação do kit de produção multimídia na rede de Pontos de Cultura, rodando exclusivamente software livre e de código aberto, ambientes colaborativos online para apoiar a formação de redes sociais e um conjunto de princípios com uma forte influência de ações de mídia tática.
Eu participei da elaboração conceitual e metodológica do projeto, coordenei o mapeamento e a implementação no estado de São Paulo em 2005, coordenei articulação de comunicação comunitária e a moderação do Conversê em 2006, e no primeiro semestre de 2007 fiz parte da equipe estratégica, além editar o ambiente online do Observatório de Cultura Digital.

Fontes


Lá por 1997, quando eu ainda queria ser designer, comprei um pacote de software em promoção. Foi a única vez que comprei software voluntariamente - eram uns 90 reais por um pacotão da Macromedia com versões desatualizadas de todos seus softwares de DTP, com manuais e tudo. Valeu a pena pra conhecer o Fontographer, software pra fazer fontes tipográficas. Nos meses seguintes, brinquei um pouco fazendo fontes inspiradas em fotos ou pirateando outras fontes. Depois, como com tudo na vida, desisti, mas um dia desses encontrei essas fontes em um CD antigo de becape, e resolvi publicar no Acervo do Estúdio Livre.

http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=5724

Também publiquei aqui um preview em PDF que conta a historinha de cada uma. Tá em anexo (PDF, 430KB).
AnexoTamanho
fontes_sumario.pdf430.4 KB

Textos

Textinhos que eu escrevi por aí.

Notes from the field: E-waste in Brasil - Lixo Eletrônico and MetaReciclagem

A convite do editor Soenke Zehle, um artigo que escrevi com a Dani Matielo foi publicado no I-R-I-E journal, edição 11. O PDF completo da publicação está disponível aqui. A íntegra do nosso artigo está em anexo (PDF, 104kb, em inglês).

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irie_ecologies_fonseca_final.pdf104.86 KB

ZASF - Zonas Autônomas Sem Fio

"Mr. programmer
I've got my hammer
Gonna smash my, smash my radio!"
Ramones, We want the airwaves

"Para explicar como as forças astrológicas poderiam produzir ação à distância, Mesmer postulou um fluido sutil que ele chamava fluidium, um meio diáfano que comunicava vibrações lunares para as marés da mesma forma que possibilitava que Venus e Júpiter ajustassem os destinos humanos. O fluidium tomava forma no conceito Newtoniano de éter, um fluido invisível que permearia o espaço e serviria como meio estático para a gravitação e o magnetismo, bem como sensações e estímulos nervosos. Para Newton, o éter servia para explicar como os corpos distantes do sistema solar comunicavam-se uns com os outros, e ao mesmo tempo livrar-se da abominável ideia de um universo em que existisse o vácuo."
Erik Davis, Techgnosis

Eletrônicos equipados com wi-fi são geralmente vistos somente como dispositivos de acesso à internet. Entretanto, assim como Brecht propôs para o rádio, é possível pensar em um uso alternativo das tecnologias sem fio para a criação de redes informacionais locais, não conectadas à internet e que não dependam de uma infra-estrutura centralizada. O acesso ubíquo à internet tem certamente um aspecto de integração, mas por outro lado também traz uma grande alienação do sentido de local: cinco pessoas sentadas em um café acessando seu email ou orkut com wi-fi são cinco pessoas mantendo-se alheias uma à outra e ao entorno. É certamente possível argumentar que essas cinco pessoas podem usar a internet para acessar informação local, mas é raro que tentem. Mesmo quando buscam esse tipo de informação, acabam buscando em estruturas centralizadas como o google ou a wikipedia.

Um dos conceitos fundadores da rede Bricolabs foi o de infra-estruturas genéricas de informação (generic information infrastructures). Em essência, tratava-se de adotar padrões abertos de comunicação para a criação de redes para usos múltiplos e não determinados, fazendo uso de dispositivos genéricos de informação (os GIDs, generic information devices) e tratando de incentivar a apropriação de possibilidades técnicas e como implementá-las. Buscava-se delinear estratégias para o desenvolvimento de ciclos de inovação baseados em informação livre (hardware aberto, software livre, espectro aberto e conhecimento/cultura livres). Foi a partir desse posicionamento que a Bricolabs conquistou o apoio e participação de pessoas e coletivos em todo o mundo que atuavam em projetos que compartilhavam dessa perspectiva, além de ter criado campo para o desenvolvimento de projetos relacionados, como o Bricophone.
Em todo o mundo, a tensão entre a liberdade na rede e as políticas de controle usando pretextos diversos - pirataria, pedofilia, etc. - chama a atenção para uma questão hipotética mas ainda assim presente: o que acontece quando alguém puxar a tomada da internet? A estrutura de domínios, que dá identidade à rede permitindo que as pessoas saibam como acessar os sites de outrxs, é controlada por uma organização norte-americana. A criação de infra-estruturas genéricas e autônomas, além de objetivamente possibilitar arranjos de rede diferenciados, também atua no sentido de desenvolver estratégias de sobrevivência para o pior cenário.
Rob van Kranenburg, um dos criadores da Bricolabs, publicou pelo Institute of Network Cultures de Amsterdam um ensaio chamado "The Internet of Things", em que chama a atenção para a necessidade de combater o hábito da indústria de TI em encapsular o conhecimento que embarca no desenvolvimento de seus produtos. Para fazer frente a essa tendência, é vital que se criem espaços de experimentação técnica e social, em que seja possível explorar (mesmo que à força) a indeterminação potencial dos mais variados dispositivos eletrônicos de comunicação. Esses espaços têm emergido em todo o mundo, atuando em rede e construindo ciclos de aprendizado e inovação que passam longe das estruturas tradicionais. No Brasil, uma dessas redes é a MetaReciclagem, que conta com algumas centenas de integrantes e dezenas de projetos e espaços.

Autonomia em rede

Desde que a MetaReciclagem começou a ser articulada, em 2002, alguns de seus integrantes tinham a intenção de desenvolver redes sem fio autônomas baseadas em hardware remanufaturado e software livre, mas só recentemente os equipamentos para conectividade wi-fi têm se tornado mais acessíveis. Hoje e possível retomar essa intenção original da MetaReciclagem, buscando as referências da rede Bricolabs e do projeto mimoSa, e aproveitando o conhecimento compartilhado por projetos como Burnstation, Freifunk, Guifi, Hive Networks e RedeMexe.
O núcleo Desvio propõe, nesse sentido, o desenvolvimento de zonas autônomas sem fio (ZASF), um conjunto de soluções de hardware e software para a criação de redes wi-fi autônomas para diversos usos experimentais e informacionais. É uma ação de uso crítico de tecnologias cada vez mais abundantes para a criação de zonas autônomas sem fio.
Um aspecto técnico do wi-fi - a criação de redes "ad-hoc", de ponto a ponto - pode ser estendido para a criação de redes mesh, em que cada equipamento conectado torna-se também parte de uma infra-estrutura compartilhada de rede. O projeto ZASF articula a implementação dessas redes com uma reflexão sobre algumas polaridades que emergem: criação de sentido local ou dissolvência na internet; compartilhar e acessar informação livre ou ensinar e aprender a partir da descoberta e do desafio; usar ferramentas comerciais remotas ou manter serviços de rede no próprio computador; etc.
Uma possibilidade ainda pouco explorada é o reuso de hardware para estabelecer as redes autônomas. Qualquer computador feito nos últimos dez anos é mais do que suficiente para oferecer serviços de rede como servidor web com sistemas colaborativos de gestão de conteúdo - wikis e blogs; servidor de chat e mensagens instantâneas; armazenamento e acesso de arquivos de mídia e documentação; e até serviços de stream de áudio e vídeo. Os aspectos de descentralização e auto-replicação das redes mesh também são estendidos ao projeto através da disponibilização de documentação e de todo o software necessário para a criação de redes semelhantes em outras localidades e contextos.
Na prática, o protótipo de ZASF é uma rede mesh localizada em espaço público, e acessível a qualquer dispositivo que queira se conectar a ela. Uma vez dentro da rede, qualquer tentativa de navegar na internet direciona o dispositivo para um site local, que dá acesso aos diferentes serviços disponíveis - wiki aberto, chat, diretório de mídia compartilhada, documentação técnica e conceitual sobre a própria rede, tutoriais e software para replicação, etc. Dependendo do contexto, a rede pode oferecer conteúdo específico, atuando como totem wireless ou espaço de informação.

Documentando

Vamos publicar toda a documentação relacionada ao projeto ZASF na
tag "wireless" do blog desvio

Gambiarra - criatividade tática

Por Felipe Fonseca e Hernani Dimantas

Mandamos esse texto para a publicação do Paralelo, evento que aconteceu em março/abril de 2009 em São Paulo. Devem sair uma versão impressa e uma POD (print-on-demand) nos próximos meses.

A gambiarra aparece como a arte de fazer. A re-existência do faça-você-mesmo. Sem todo o ferramental, sem os argumentos apropriados, mas com o conhecimento acumulado pelas gerações. Fazer para modificar o mundo. Um contraponto ao empreendedor selvagem. Fazer para transformar aquilo que era inútil num movimento ascendente de criatividade. A inovação está presente no DNA pós-moderno, no pós-humano. Numa vida gasosa. Abrimos aqui parênteses para fazer uma crítica ao Bauman com suas diversas modernidades líquidas. O líquido se acomoda ao recipiente. Seja um copo, um vaso ou apenas a terra contra a qual o oceano se deixa existir. O gasoso flui no espaço, no tempo e no ser em existência. Não só líquida ou gasosa, a pós-modernidade é a multiplicidade de estados que se misturam, na confluência da Ipiranga com a São João, na co-existência de todos os níveis de desenvolvimento econômico e tecnológico. Uma gambiarra que remixa, modifica, transforma e se mistura. Traço comum da inventividade cotidiana, do improviso, da descoberta espontânea, da transformação de realidades a partir da multiplicidade de usos. O mais trivial dos objetos, lotado de usos potenciais: na solução de problemas, no ornamento improvisado, na reinvenção pura e simples. O potencial de desvio e reinterpretação em cada uso. A inovação tática, acontecendo no dia a dia, em toda parte.

Gambiarra é um termo em português que no dicionário denota uma extensão elétrica, mas ali no mundo real adotou (naturalmente?) outro significado ao qual só podemos tentar aproximações: improviso, solução temporária, bricolage, desconstrução, precariedade. É tida como consequência de uma sociedade ainda não totalmente amadurecida: como não temos as estruturas apropriadas, as ferramentas adequadas, os profissionais especializados (ou o dinheiro para contratá-los), a gente improvisa. Desloca a finalidade desse e desse objeto, soluciona as coisas por algum tempo, e assim vai levando.
Mas a gambiarra é muito mais do que isso. O ideal de sociedade hiper-especializada, com conhecimento compartimentado, guardado em gavetinhas e vendido em embalagens brilhantes, já deu sinais de esgotamento. A aceleração da aceleração do crescimento econômico já começou a vacilar (e nem vamos falar em crise, ok?). O modelo de desenvolvimento do século XX não fechou a conta: os países ricos não conseguiram integrar as populações de imigrantes, criaram uma sensação de estabilidade e prosperidade totalmente ilusória, transformaram toda produção cultural e toda solução de problemas em comércio. Em nome do pleno emprego e de uma sociedade totalmente funcional, as pessoas comuns perderam uma habilidade essencial: a de identificar problemas, analisar os recursos disponíveis e com eles criar soluções. Em vez de usar a criatividade para resolver problemas, as pessoas pegam o telefone e o cartão de crédito. Todos vítimas da lógica do SAC!
Esse movimento embute a semente de sua própria reação. O faça-você-mesmo é a sequela dele. As novas gerações assumem a necessidade de ação. Não dá para ficar com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. Há que se fazer a diferença. Mesmo nos países ricos e nos centros urbanos brasileiros, a repressão ao impulso inventivo cotidiano causa uma insatisfação que acaba sendo canalizada para atividades criativas. Inventores e inventoras em potencial buscam reconhecimento e troca em seus pares, e a gambiarra renasce. A entrada das novas tecnologias nos tem aberto alguns espaços. As pessoas estão cada vez mais construindo atalhos para a participação em rede. Grupos de afinidade se encontrando para organizar hacklabs, iniciativas faça-você-mesmo, software livre, robótica de baixo custo, hardware aberto e experimentos de diversas naturezas. Nesse sentido, a gambiarra, nosso traço tão brasileiro da gambiarra, não é atraso ou inadequação, mas sim um aviso e um apelo ao mundo: desenvolvam essa habilidade essencial, e a sensibilidade que ela exige em relação a objetos e usos. Não se alienem de sua criatividade! Não acreditem nas estruturas do mundo ocidental que querem transformar a criatividade (as "indústrias criativas" e todas as suas falácias) em nada mais que um setor da economia, restrito e regulamentado. Criatividade não se trata de submissão individual ao mercado "criativo" que tudo transforma em produto, mas do estímulo à capacidade de invenção em todas as áreas.
A gambiarra ainda não virou produto. Precisamos resistir a isso. Nosso espírito antropofágico facilita, mas as tentação de uma sociedade plenamente consumista estão sempre na esquina (ali na frente do shopping center, pra ser exato). Curiosamente, não é a precarização das pontas que faz do mundo globalizado uma ameaça para a gambiarra. O perigo é justamente o outro lado: traz o espectro de um tipo burro de desenvolvimento para os quase-desenvolvidos. Não podemos acreditar demais no sonho civilizado de uma sociedade em que toda aplicação de conhecimento vira consumo, porque isso destrói o potencial de criação nas pontas que vai ser cada vez mais importante.
Da mesma forma, é também fundamental questionar o uso de um referencial da gambiarra como mero instrumento de renovação estética, sem tratar desse aspecto importante de entender a criatividade como processo distribuído e transformador. Fica no ar a pergunta de Aracy Amaral citada em artigo de Juliana Monachesi questionando a chamada "estética da gambiarra" na mostra Rumos Artes Visuais 2005-2006 – Paradoxos Brasil: "Seria uma circunstância necessária com que os artistas brasileiros se deparam para produzir ou trabalhar com o descarte tornou-se um maneirismo?”. A gambiarra não pode ser mero ornamento formal para ocupar galerias - para desenvolver toda sua potência precisa ser legitimada, perder a aura de atraso e envolver cada vez mais gente na perspectiva de criatividade tática. Essas são as bases da Gambiologia. Não pretendemos um elogio da precariedade, do que é abaixo do ideal, daquilo que está aquém. Não, estamos atuando e construindo um mundo em que toda condição é vista como abundância. Com o espectro da invenção latente no dia a dia, qualquer problema é pequeno. Basta exercitar o olhar.

Cyberpunk de chinelos

Escrevi isso para o Simpósio de Arte Contemporânea que vai acontecer no fim do mês no Paço das Artes, em Sampa. Também vou mediar uma mesa sobre "Redes Sociais, Arquivo e Acesso".

O mundo virou cyberpunk. Cada vez mais as pessoas fazem uso de dispositivos eletrônicos de registro e acesso às redes - câmeras, impressoras, computadores, celulares - e os utilizam para falar com parentes distantes, para trabalhar fora do escritório, para pesquisar a receita culinária excêntrica da semana ou a balada do próximo sábado. Telefones com GPS mudam a relação das pessoas com as ideias de localidade e espaço. Múltiplas infra-estruturas de rede estão disponíveis em cada vez mais localidades. Essa aceleração tecnológica não resolveu uma série de questões: conflito étnico/cultural e tensão social, risco de colapso ambiental e lixo por todo lugar, precariedade em vários aspectos da vida cotidiana, medo e insegurança em toda parte. Mas ainda assim embute um grande potencial de transformação.
O rumo da evolução da tecnologia de consumo até há alguns anos era óbvio - criar mercados, extrair o máximo possível de lucro e manter um ritmo auto-suficiente de crescimento a partir da exploração de inovação incremental, gerando mais demanda por produção e consumo. Em determinado momento, a mistura de competição e ganância causou um desequilíbrio nessa equação, e hoje existem possibilidades tecnológicas que podem ser usadas para a busca de autonomia, libertação e auto-organização - não por causa da indústria, mas pelo contrário, apesar dos interesses dela. As ruas acham seus próprios usos para as coisas, parafraseando William Gibson. Em algum sentido obscuro, as corporações de tecnologia se demonstraram muito mais inábeis do que sua contrapartida ficcional: perderam o controle que um dia imaginaram exercer.
O tipo de pensamento que deu substância ao movimento do software livre possibilitou que os propósitos dos fabricantes de diferentes dispositivos fossem desviados - roteadores de internet sem fio que viram servidores versáteis, computadores recondicionados que podem ser utilizados como terminais leves para montar redes, telefones celulares com wi-fi que permitem fazer ligações sem precisar usar os serviços da operadora. Um mundo com menos intermediários, ou pelo menos um mundo com intermediários mais inteligentes - como os sistemas colaborativos emergentes de mapeamento de tendências baseados na abstração estatística da cauda longa.
Por outro lado, existe também a reação. Governos de todo o mundo - desde os países obviamente autoritários como o Irã até algumas surpresas como a França - têm tentado restringir e censurar as redes informacionais. O espectro do grande irmão, do controle total, continua nos rondando, e se reforça com a sensação de insegurança estimulada pela grande mídia - a quem também interessa que as redes não sejam assim tão livres.
Nesse contexto, qual o papel da arte? Em especial no Brasil, qual vem a ser o papel da arte que supostamente deveria dialogar com as tecnologias - arte eletrônica, digital, em "novas" mídias? Vêem-se artistas reclamando e demandando espaço, consolidação funcional e formal, reconhecimento, infra-estrutura, formação de público. São demandas justas, mas nem chegam a passar perto de uma questão um pouco mais ampla - qual o papel dessa arte na sociedade? Essa "nova" classe artística tem alguma noção de qual é a sociedade com a qual se relaciona?
É recorrente uma certa projeção dos circuitos europeus de arte em novas mídias, como se quisessem transpor esses cenários para cá. Não levam em conta que todos esses circuitos foram construídos a partir do diálogo entre arte e os anseios, interesses e desejos de uma parte da população que é expressiva tanto em termos simbólicos como quantitativos. Se formos nos ater à definição objetiva, o Brasil não tem uma "classe média" como a europeia. O que geralmente identificamos com esse nome não tem tamanho para ser média. Aquela que seria a classe média em termos estatísticos não tem o mesmo acesso a educação e formação. É paradoxal que a "classe artística" demande que as instituições e governo invistam em formação de audiência, mas se posicione como alheia a essa formação, como se só pudesse se desenvolver no dia em que a "nova classe média" for suficientemente educada para conseguir entender a arte, e suficientemente próspera para consumi-la.
Muita gente não entendeu que não só o Brasil não vai virar uma Europa, como o mais provável é que o mundo inteiro esteja se tornando um Brasil - simultaneamente desenvolvido, hiperconectado e precário. Não entendeu que o Brasil é uma nação cyberpunk de chinelos: passamos mais tempo online do que as pessoas de qualquer outro país; desenvolvemos uma grande habilidade no uso de ferramentas sociais online; temos computadores em doze prestações no hipermercado, lanhouses em cada esquina e celulares com bluetooth a preços acessíveis, o que transforma fundamentalmente o cotidiano de uma grande parcela da população - a tal "nova classe média". Grande parte dessas pessoas não tem um vasto repertório intelectual no sentido tradicional, mas (ou justamente por isso) em nível de apropriação concreta de novas tecnologias estão muito à frente da elite "letrada".
Para desenvolver ao máximo o potencial que essa habilidade espontânea de apropriação de tecnologias oferece, precisamos de subsídios para desenvolver consciência crítica. Para isso, o mundo da arte pode oferecer sua capacidade de abrangência conceitual, questionamento e síntese. Vendo dessa forma, as pessoas precisam da arte. Mas a arte precisa saber (e querer) responder à altura. Precisa estar disposta a sujar os pés, misturar-se, sentir cheiro de gente e construir diálogo. Ensinar e aprender ao mesmo tempo. Será que alguém ainda acredita nessas coisas simples e fundamentais?

Interdependência enredada

Mandando minha colaboração para a blogagem coletiva do Dia da In(ter)dependência.
Por conta de alguns movimentos recentes, mas ainda seguindo uma obsessão que já dura sete anos, tenho conversado bastante sobre a MetaReciclagem nas últimas semanas. Orlando trouxe uma imagem interessante - o reacesso - que com certeza faz bastante sentido para mim. No processo de coleta e compilação do História da / Histórias de MetaReciclagem, uma das coisas mais importantes para mim foi poder revisitar hoje - com um pouquinho mais de experiência - as ações, ideias e insights do passado, minhas e nossas.
Tem um aspecto obviamente constrangedor: eu certamente não escreveria algumas coisas, não tomaria algumas decisões, e colocaria algumas coisas de modo diferente hoje em dia. Mas também traz a possibilidade de aplicar uma perspectiva histórica - afinal sete anos não são tão pouco tempo - e entender como as ideias se desenrolam e desenvolvem com o tempo. Essa dobra ajuda a trazer novas possibilidades para o futuro, ao passo que também segura um pouco a megalomania (hm, ok, não segura muito não).
Certamente, todo o processo de coleta de material para aquela compilação histórica da MetaReciclagem foi influenciada pelos projetos, ações e leituras com os quais me envolvi nos últimos anos, e também certamente o reacesso de todo esse material influencia o que eu vou pensar, escrever e articular hoje em dia sobre redes. Nesse sentido, o processo de desenvolvimento da infralógica da MetaReciclagem é totalmente influenciado pelo reacesso. Mas acho interessante ir além disso: não só o reacesso, mas também a reiteração e reforço de imaginário.
Ontem, às vésperas do Dia da In(ter)dependência, uma tuitada minha foi parar na rede MetaReciclagem. Eu duvidava um pouco dos resultados efetivos da blogagem coletiva de hoje. Orlando, Mariel, Dani e Teia comentaram. Em especial me provocou o que a Dani falou: "'rede' é uma coisa que se sustenta muito além daquilo que as pessoas tentam escrever sobre rede". Tenho certeza absoluta disso, mas existe também uma contra-influência: aquilo que as pessoas tentam escrever sobre redes não serve apenas para dissecar e analisar as redes, mas também influencia decisivamente seu desenvolvimento, em especial no caso de tentativas situadas de conceituação, o que é frequente na MetaReciclagem.
Nas últimas semanas, comentei algumas vezes com diferentes pessoas que metade da MetaReciclagem é ficção. Não que seja mentira, mas certamente o discurso que foi construído em torno da rede tem muito de recorte esperançoso, interpretação otimista e, obviamente, um aspecto de criação de mitos (que ecoa à exploração sobre Metamitogênese, nunca tão explicitamente articulada mas ainda assim bastante presente), e isso acaba mexendo com o modo com que as ações se desenvolvem. Paradoxo do real e agenciamento coletivo, diriam Hernani e Dalton. Nada de inesperado.
Ainda assim, a satisfação ao ver que esse tipo de construção de discurso acaba por influenciar positivamente a compreensão e a consequente vivência de rede que acaba sendo possível é difícil de explicar. Raquear a realidade - fazer as pessoas acreditarem na construção colaborativa e por causa disso começarem a agir de forma mais colaborativa.
É aí que aparece mais uma dobra: no último encontrão de MetaReciclagem, eu comentei que para que a rede existisse era necessário que as pessoas conversassem mais, cotidianamente, sobre tudo o que fazem. Essa opinião não é totalmente sincera: tenho certeza de que se as conversas forem intermitentes e incompletas, ainda assim a rede continua se formando potencialmente a cada instante. Mas é meu papel (ficcional? dramático? regra do jogo?) pregar a documentação, a conexão e a construção em rede, e influenciar mais pessoas a agirem dessa forma.
Isso acaba me dando uma visibilidade desproporcional. O efetivo desenvolvimento da MetaReciclagem como rede também requer a influência de alguns profetas silenciosos e feiticeiros na fronteira, mas por conta da própria natureza do papel que assumem, eu apareço mais. Somos - documentadorxs, praticantes, articuladorxs, técnicxs - interdependentes, em um nível de complexidade que evita que as coisas percam a graça tão rápido. Talvez seja possível uma redação alternativa à definição mais recente da MetaReciclagem: um jogo de interdependência. Bom para me lembrar que a rede é muito maior do que aquilo que nós - documentadorx, comunicômanos e remitificadores - conseguimos apreender, e para dar uma certa tranquilidade de que o futuro ainda reserva muitos assuntos para a gente entender, relatar e reinventar. Espero que os outros papéis do jogo ainda tenham desafios como a gente. O caminho é longo e muito divertido. Vamos?

Sem fio - plataforma etérea

Como comentei no post anterior, já há algum tempo temos articulado referências sobre possibilidades relacionadas a redes sem fio. No começo era uma curiosidade técnica, mais uma potencial expansão de horizontes do eterno jogo de descoberta que é brincar com tecnologia livre (o que faz com que muita gente - eu incluído - acabe se dedicando a projetos que não dizem nada para outras pessoas, justamente porque não conseguem explicar essa dimensão do fascínio da descoberta, mas isso é outro assunto). Com o tempo, acabei misturando a pesquisa de redes sem fio com a exploração conceitual de paralelos entre magia e tecnologia (mais sobre isso no meu blog de tecnomagia). Também começava a formular uma questão: como pode se articular a perspectiva da MetaReciclagem e das várias mimoSas que rolaram por aí - que demonstram de maneira muito concreta o potencial da apropriação crítica de tecnologias - com esse universo mais etéreo das redes sem fio.
Coletei por alguns anos um monte de links e anotações até conseguir pensar em uma plataforma viável para isso. Queria algo na linha das infra-estruturas genéricas, com base em software livre. Brinquei um pouco com o OpenWRT, mas acabei ficando com o DD-WRT por um tempo. Ambos são sistemas baseados em GNU/Linux para ser instalados em roteadores wi-fi como o WRT54G. Fiz algumas experiências com eles, mas o armazenamento e a memória RAM desses roteadores são extremamente limitados para possibilitar muita coisa. Foi útil para expandir a rede aqui de casa com uma Fonera Liberta, mas pra criar redes locais mais versáteis precisava de algo mais.
Em março deste ano, durante o Wintercamp, conheci nas mãos do broda Alejo Duque uma Alix 3d3: um SOC (sistema em um chip) baseado no AMD Geode que para o tamanho, preço e consumo de energia é bem forte: 500Mhz e 256Mb de RAM, com vídeo VGA, duas portas USB e duas portas Mini PCI, além de placas de rede e som. Alejo usa o sistema para montar as Streambox, máquinas prontas para ligar na rede e começar a estrimar o que estiver entrando pela placa de som. Na Suíça, onde ele vive, custava o equivalente a cerca de trezentos reais. Ele fez a mão de encomendar uma e me mandar por correio.
Durante alguns meses, realizei alguns testes, descolei acessórios (um cartão sem fio e outro cartão CF) e aprendi um monte de coisas (tudo documentado aqui). A estação sem fio roda em uma rede mesh autônoma, oferece IP via dhcp, roda um servidor web, um servidor de chat. Cheguei a fazer testes com uma webcam, mas não tenho uma disponível por aqui. Fico pensando ainda em outras possibilidades de entrada e saída de dados (bluetooth, placa de som, sensores de presença, luminosidade, proximidade) detonando processos no totem. Fiz um vídeo mostrando o que acontece quando um cliente encontra e se conecta a essa rede:

Estabelecida a base tecnológica, acabei elaborando três vertentes potenciais (entre diversas possíveis) para o uso dessas caixas autônomas sem fio: máquinas trocadoras de mídias, inseridas em eventos e espaços públicos - culturais, turísticos, rurais, florestais -, recebendo e disponibilizando conteúdo na área circundante; máquinas móveis, embutidas em automóveis ou transporte público, que levem uma rede wi-fi carregada de conteúdo e serviços para qualquer lugar (que dialoga com as pesquisas sobre itinerâncias); e uma terceira linha que eu venho chamando Oraculismo - dialogando com a tecnomagia - que trata essas redes como espaços mágicos, em que o conteúdo só é revelado após negociação, troca ou descoberta.

O Oraculismo surgiu como ficção, um conto tecnomágico que nunca terminei de escrever. Mas foi se desdobrando como investigação estética e, possivelmente, jogo. Um elemento importante é contrapor-se a um tipo de alienação da localidade que o acesso ubíquo à internet pode favorecer, e possibilitar a criação de espaços informacionais - totens - totalmente contextuais, modificados e realimentados pelas pessoas que circularam por ali, onde ainda existem segredos. O desvelar de mistérios é um importante tipo de aprendizado. E ainda tem mais um desdobramento possível: a sincronização de dois totens precisa de deslocamento físico de pessoas que tenham consciência dos segredos, e as trocas diretas entre essas pessoas podem acontecer nos cantos do sistema: notas deixadas em espaços a que ninguém tem acesso, exceto o guardião que identifica os agentes que aprenderam a executar rituais pré-determinados. O guardião é um bot - um daemon - que fica esperando em um canal de chat. De acordo com os rumos que a conversa toma, ele começa a dar acesso a diferentes áreas de conteúdo e serviços disponíveis na rede local. 
Próximos passos, pesquisa pros próximos meses: dar vida ao guardião do Oraculismo, para gerenciar os diversos tipos de interação possíveis. Prometo que conto mais assim que houver.
 

Redes

Nos últimos dias tenho folheado de maneira descompromissada algumas publicações que recebi recentemente da Holanda: Organized Networks, de Ned Rossiter; From Weak Ties to Organised Networks, publicação pós-Wintercamp (que já comentei por cima aqui); e a caixa e-culture, uma caixa com um DVD, um folheto e três livros. Não foi de propósito, mas isso me pegou no meio do planejamento e primeiras conversas relacionadas à aplicação dos recursos do Prêmio de Mídia Livre que a MetaReciclagem levou, e acabei estendendo alguns insights a essa busca mais prática.
Enquanto busca de identidade de rede, a MetaReciclagem já passou por um monte de fases. Desde o começo como um subgrupo do projeto metáfora, passando pela dissolução influenciando grandes projetos de governo, até a fase atual em que muitas vezes parece que a potência de articulação e colaboração se esgotou, até que aparece vida em um canto esquecido, até que alguém volta a se movimentar naquele espaço simbólico depois de alguns anos em silêncio, até que os olhares e afinidades se reencontram em novas buscas. Acho que em todas essas fases, a única constante é a incerteza sobre o que vem a seguir. Daí que quando eu pego alguns desses estudos de matriz europeia, chega a me incomodar a sensação de que estão tentando enquadrar uma classe de fenômeno que não se presta muito a classificações e determinações.
Quando Rossiter sugere que é necessário que se criem novas formas institucionais que dêem conta do tipo de interação que as redes tornam possível, ele o faz baseado na perspectiva de uma sociedade que já foi concreta e estável e que em determinado momento passou a se liquefazer, a perder os limites e as estruturas. Como se o agora fosse um momento intermediário, em que se estabelecem as bases de uma sociedade que vai voltar a ser estável, segura e previsível (posso estar enganado, o livro dele é o que estou avançando mais devagar).
Essa visão influencia até mesmo o tipo de questionamento que o Wintercamp fazia a todas as redes que reuniu. Compartilhei com outras pessoas a sensação de que as perguntas não se aplicavam às práticas que estávamos debatendo no espaço da rede Bricolabs (comentei um pouco mais sobre isso nos meus posts sobre o evento). Talvez seja necessário relativizar as perspectivas: em vez de partir de um mundo europeu ocidental que se caotizou, partir de um mundo mais amplo, que sempre foi inclassificável e inordenado, no qual por algum tempo e em algumas localidades específicas existiu uma ilusão de ordem.
Há alguns dias, eu bloguei sobre alguns contrastes que senti em sampa depois de um fim de semana em Porto Alegre. Acho que faltou complementar a reflexão com o que eu sinto aqui em Ubatuba. Casas térreas, ainda muita rua de terra, muita loja de material de construção, muita obra incompleta, muita terra pra vender. Mais do que uma urbanização ainda não realizada, eu penso mais em termos de fronteira, de um limiar entre tipos diferentes de espaço, realidades potenciais que compartilham a coordenada geográfica. Como se ao atravessar a rua eu também estivesse atravessando o rio que poderia ainda existir ou a estrada ou ferrovia que poderia ter sido construída.
Inverter a perspectiva do desenvolvimento é pensar que esse cenário de Ubatuba é tão contemporâneo quanto a Potsdamer Platz em Berlim. Mais do que isso, faz parte de um cenário complexo em que o caos sonoro que escuto no quarteirão nesse exato momento - jazz, rock, igreja evangélica, funk carioca, todos no volume máximo, coexiste com a frieza pretensiosa da Avenida Paulista, que fica a menos de 250km daqui.
Como essas coisas se relacionam daqui para a frente, é uma coisa interessante a se pensar. Mas acho que estar nesse ambiente diverso contribui bastante para a compreensão de rede que a gente acaba adotando aqui no Brasil. Outra coisa que eu depreendo de alguns desses textos de fora é a noção de que a rede é uma coisa que não faz parte da vida cotidiana: as pessoas têm seu trabalho, sua família, seus amigos, e além de tudo isso - em uma dimensão paralela - participam de redes. É uma visão que sempre me pareceu equivocada, mas talvez nisso eu revele minha própria perspectiva: de que redes sempre fizeram parte da existência humana e do cotidiano.
Em outras palavras, acho que eu estou mais uma vez afirmando que um mundo sem redes, se é que existiu, foi uma distorção específica de uma época e de alguns locais, talvez daqueles contextos que quiseram acreditar que as instituições democráticas vinham para eliminar de uma vez por todas com a necessidade de arranjos informais diretos entre as pessoas, quase como uma objetivação da da vida em sociedade: você não precisa desenvolver a habilidade de se relacionar em redes, porque as instituições vão te oferecer ferramentas estatisticamente comprovadas para isso. Se não faz sentido em democracias estabelecidas (já hoje, figuras que eram democratas efusivas questionam se a representatividade estatística ainda vale em tempos de grande imigração para os países ricos), me parece que faz menos sentido ainda em democracias vacilantes como a nossa (alguém acredita em voto obrigatório?).
Nisso tudo, acabo caindo de novo na imagem do poder para-constituido, que comentei uma vez em uma mensagem na lista de discussão da MetaReciclagem: em vez de pensar que as redes são um cenário pré-constituído e as organizações um cenário pós-constituído (caso em que a constituição de uma organização seria um divisor de águas), é melhor pensar na coexistência, em rede, de atores que estão constituídos com cenários que não se constituem (e nem pretendem se constituir).
Já passamos o século XX, a era da indústria e das marcas, em que as coisas eram classificadas e rotuladas de maneira visível e consistente. Se o mundo do dinheiro já entendeu isso, não podemos perder tempo (nós que acreditamos em outrxs deusxs além da nota de cem) com o atrito causado pela tentativa de usar regras antigas de convivência entre multiplicidades pessoais, identidades coletivas e as limitações burocráticas.
Gosto de pensar que a MetaReciclagem, de alguma forma, e com toda a dispersão que tem, oferece um exemplo (mas nenhuma fórmula) desse tipo de convívio complexo, tenso, mas em última instância ainda produtivo e feliz. Talvez uma das bases seja justamente que as pessoas só colaboram se quiserem: não existe coerção, e até por conta da distância a pressão que se pode exercer sobre as decisões nas pontas é menor do que seria em um contexto mais estruturado.
Essa questão da permeabilidade da rede também foi uma referência interessante de um dos textos da caixa e-culture (que falei lá no comecinho desse post que tá saindo mais longo do que eu imaginava), relacionando a idéia de walled garden (jardim cercado) com o convívio em rede. Juntando esse tipo de reflexão com a necessidade concreta de definir caminhos para o desenvolvimento do site, mandei uma mensagem pra lista articulando essas referências com algumas idéias do Bauman que andavam circulando por lá, tratando das figuras do caçador e do jardineiro.
Jardinagem foi um termo que a gente adotou dos wikis e acabou usando bastante ao longo desses anos, mas talvez seja hora de misturar com a perspectiva da permacultura, que em essência tem mais a ver com o ideário da MetaReciclagem: reuso, apropriação, invenção com os elementos que estão à mão, etc. Há algumas semanas fui visitar aqui em Ubatuba o IPEMA, e por mais que eu já conhecesse grande parte das coisas que eles fizeram por ali, é sempre bom ver que aquela conversa de estimular um tipo de sensibilidade que faça as pessoas trocarem o comprar pelo fazer, de preferência com materiais reaproveitados, também ecoa em outras áreas do conhecimento.

Outros caminhos

A idade contemporânea sacralizou o planejamento de produtos. Tornou o design uma via de mão única, quase divina: a indústria desenha, enquanto os "consumidores" assumem o papel de receptores semipassivos - compram, usam, descartam e compram mais. Nesse mundo, quanto menos usos um produto tem, melhor. As coisas são feitas para um fim, e só para ele. Para outras utilidades, que se comprem outros produtos. O saber popular da gambiarra é combatido, desvalorizado como ação de gente que vive na precariedade, sem acesso a recursos materiais. A consequência direta disso é que cada vez mais as pessoas aprendem que problemas só podem ser resolvidos com consumo, e perdem o acesso à inovação cotidiana. Além disso, a definição das características dos produtos, objetos e ferramentas recai totalmente sobre o lado mais forte, que também decide sozinho sobre outros aspectos como durabilidade e obsolescência, contando com o braço armado da imprensa especializada (um fenômeno bastante visível no mercado de eletrônicos, mas também com automóveis, eletrodomésticos e outros).
O desvio (como o détournement) é um tipo de contestação que atua na desconstrução simbólica de todo esse cenário. Ao contrário da reciclagem, que busca reinserir no ciclo produtivo os produtos não mais utilizados, o desvio busca trazer à tona a criatividade latente no dia a dia. A partir do momento que essa invenção cotidiana de significado se dissemina, também se dissemina o tipo mais essencial de criatividade, aquele que pode ajudar as pessoas a resolverem problemas sem pôr a mão no bolso. Não se trata de mero elogio da precariedade, mas de construção de uma habilidade cada vez mais útil em época de colapso ambiental, de crise econômica, de mesmice cultural. Para isso, precisamos não só tratar a gambiarra como solução prática, mas também como elemento estético. Quando as pessoas perdem a vergonha da gambiarra, estamos começando a virar o jogo.

Logo, gambi

metafloppybot
Os tempos estão mudando, como sempre. A tal crise financeira pode ter servido no mínimo pra criticar os apóstolos da fórmula crescimento-produção-consumo-descarte, questionar o vício no upgrade. Até vozes na grande mídia estão aceitando que talvez os videiros tivessem razão. Que em vez de uma indústria fabricando cada vez mais produtos que duram menos, talvez seja a hora de as pessoas criarem produtos elas mesmas.
Naturalmente, todos esses indícios são limitados. É razoável tentar inferir uma visão geral: finalmente, o século XX está acabando. Já não era sem tempo. Mas ainda existem muitas estruturas a desconstruir. Lá no mundo que se define como "desenvolvido" (e muita gente discorda), exageraram na especialização e todos viraram reféns da restrição do conhecimento. Um amigo que vive em Londres conta que se quiser consertar sozinho um interruptor quebrado, o senhorio pode processá-lo. Em nome do caminho do progresso, retirou-se de uma população inteira a liberdade da inovação cotidiana, e tudo virou consumo. Compre pronto, use por pouco tempo e jogue fora. Produza lixo, e não se preocupe com onde ele vai parar. Não crie nada, deixe isso para os especialistas.
Quero crer que cá em terras antropofágicas a realidade é outra. Não temos medo de arriscar, de fazer coisas que não sabemos. Por natureza, queremos mais do que o simples acesso. Queremos o processo, os conhecimentos abertos do meio do caminho. Sabemos usar chaves de fenda, concretas e metafóricas. Nós improvisamos. Não é todo mundo, mas muitxs amigxs têm orgulho da Gambiarra. Gambiarra é artigo, ciclo, metodologia, dissertação de mestrado e mais. Todas compartilham a perspectiva de aceitar e valorizar, em vez de recusar esse espírito de improvisação que nos é natural.
Gambiarra 2.0 Talvez seja hora de ir além, juntar todo mundo e construir as pontes entre tudo isso. Hdhd chama de Gambiologia, que foi precedida por outras gambiologias. Os significados são múltiplos - estudo da invenção cotidiana, ciência ajambrada, a biologia de seres híbridos cyberpunks, seres feitos do remix entre máquina e gente. A base é tratar como essência, como potência cultural, o que geralmente é desvalorizado pelas elites submissas ao mundo "desenvolvido". Assim como não queremos vencer o complexo de vira-latas, mas sim incorporá-lo; nós não queremos superar a gambiarra. Queremos mostrá-la ao mundo como alternativa tática de sobrevivência,  sustentabilidade na selva pós-capitalista e disseminação da criatividade. Quem vem junto?

Campus

Eu sou daquelas pessoas que não consegue registrar eventos enquanto eles acontecem. Geralmente preciso de um par de dias depois para digerir tudo. No caso da Campus Party que rolou semana passada, eu preciso de ainda mais tempo. Talvez pelo alto envolvimento que eu tive com o evento por conta do Encontrão Intergalático de MetaReciclagem, talvez pelo mero cansaço causado por um evento tão grande em lugar tão insalubre. Dormi algumas noites por lá. Exagero: passei algumas noites lá. No domingo, dava as últimas caronas e cheguei a pensar que ia desmaiar de cansaço, pra depois chegar em casa e ficar sem sono. O ambiente era estranho, sugava energia pra caceta (com algumas exceções que restauravam, como o Campus Verde e o Metabar que a galera montava toda noite no estacionamento, pra fugir da proibição de beber álcool dentro do evento).

Mas enfim, sobre o evento. Eu pensei bastante antes de armar o encontrão por lá. É um evento corporativo, bancado por grandes empresas que não ligam pra gente, cheio de imbecis como o playnerd que armou confusão com o de leve e aquele bando de moleques achando que erguer cadeiras acima da cabeça e gritar como trogloditas pode ser chamado de protesto (pelo quê, eu me perguntava...). Eu sei disso tudo. Mas por outro lado, o evento é organizado por pessoas historicamente engajadas com o sofware livre no Brasil, e deu uma grande liberdade pra gente organizar o encontrão da maneira que quiséssemos, além de ter bancado a estrutura e algumas passagens.

Já há pelo menos três anos eu queria fazer um encontro de MetaReciclagem por si. Ou seja: em vez de aproveitar outros eventos (de pontos de cultura, de inclusão digital ou o que fosse) para encontrar as pessoas, conseguir organizar minimamente uma reunião de metarecicleirxs espalhadxs pelo Brasil. Na onda de retomar um tipo de conversa que a gente costumava ter em Sampa há alguns anos (no galpão, no mezanino ou em qualquer lugar da cidade). Quando as coisas se espalharam, a gente perdeu um pouco dessa coisa ritualística de reuniões em volta da fogueira pra contar histórias.

No fim das contas, mais do que retomar isso, também rolou uma reinvenção... cada pessoa nova que se aproxima muda essencialmente a maneira como a gente entende a si a ao mundo. Conseguimos levar adiante o encontrão de MetaReciclagem sem precisar fazer nenhuma oficina de montagem de computadores, sem precisar montar telecentros ou instalar GNU/Linux. Isso pra mim é a prova da realização de uma mudança conceitual que já tinha sido preconizada há tempos: não queremos saber só de computadores, não somos só micreirxs. Se já estava claro, agora ficou claríssimo, explícito, óbvio, que o que nos une não é a facilidade com máquinas de computar, mas essencialmente a figura metafórica da chave de fenda: abrir coisas, entendê-las por dentro, modificá-las. Também ficou claro que MetaReciclagem não é só uma prática emergente, mas um grupo que se reconhece, e daí derivam afetos, atritos, entendimentos e desentendimentos, e uma multiplicidade de níveis de confiança e intimidade. Uma tribo, recheada das figuras que precisam compor uma tribo. Fora que existe toda uma satisfação de poder finalmente conhecer expressões, trejeitos, sotaques e outros detalhes de pessoas que a gente só conhecia de e-mail. E ainda chegamos a montar grupos de trabalho e debater questões mais específicas, que vão ser documentadas ao longo dos próximos dias (semanas?).

Outra coisa importante é que o próprio encontrão era uma promessa antiga, mas não foi a única. Outras foram a oficina de MitoReciclagem com o Duende (que me parece que vai repercutir bastante) e o lançamento da primeira edição do Mutirão da Gambiarra, com direito a impressão experimental de 50 cópias (que esgotaram rapidamente).

Ao fim dos dois dias de encontrão, e ao longo de uma semana inteira de convivência, eu fiquei bastante feliz com o potencial que a rede é, e com a continuidade da abertura, diversidade e xemelê que sempre existiram. Um potencial que, claro, pode ser que nunca se realize de forma plena, mas isso é parte da essência da rede, e tema pra outras conversas.

Mais, muito mais sobre o Encontrão tá sendo publicado por aí. Estamos coletando e organizando tudo que aparece na frente lá no site da MetaReciclagem.

Atualizando, também recomendo a leitura de alguns posts meus no blog da MetaReciclagem:

 

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Mutirão da Gambiarra #1 - História da, histórias de MetaReciclagem

Em janeiro de 2009, compilei uma série de textos de autores diversos para montar a primeira edição do Mutirão da Gambiarra. Lancei a versão beta em PDF durante o Encontrão Intergalático de MetaReciclagem na Campus Party 2009.

No momento (abril 2009) Paulo Bicarato está refinando essa primeira edição.

Lixo Eletrônico

Textos sobre Lixo Eletrônico (parecidos entre si, mas em níveis diferentes de detalhamento):

Em busca do Brasil profundo

Escrevi um artigo pra publicação que a Karla Brunet organizanou pós-Submidialogia 3. Virou o sétimo caderno submidiático em março de 2008. Anexo aqui (PDF).

Atualizando (22/10/08): o texto faz parte da compilação "apropriações tecnológicas".

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Teoria, Cadê?

"Teoria, Cadê", publicado como o primeiro Caderno Submidiático, não é um texto meu, mas uma edição em cima das transcrições do primeiro debate da Submidialogia #1.

Arquivo anexado (PDF, 256KB).
AnexoTamanho
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Cultura colaborativa

Escrevi esse texto no fim de 2006 pra Brazine, uma revista bilíngüe que circula na Alemanha, Suíça e Áustria. Encontrei ele perdido numa pasta aqui. Não tem muita novidade (já tem uns sete anos que eu só me repito), mas republico aqui pelo registro mesmo.

Nos últimos anos, uma grande diversidade de projetos do terceiro setor e diferentes instâncias do governo têm se concentrado na questão da exclusão digital como obstáculo fundamental para um salto qualitativo em termos educacionais, sociais e econômicos no Brasil. Se começaram com premissas bastante limitadas, como o simples fornecimento de computadores para populações periféricas - e pouca preocupação sobre todo o contexto que cerca a chegada dessa tecnologia -, alguns desses projetos têm evoluído para uma perspectiva mais abrangente. São ações que buscam promover uma visão mais ampla da tecnologia. Certamente, a influência do movimento do software livre nesses projetos foi fundamental, mostrando na prática que aspectos como a produção colaborativa, a coletividade, o remix, a criação de comunidades de intercâmbio de conhecimento são alternativas viáveis tanto em termos metodológicos como econômicos. Nesse sentido, e seguindo a própria evolução da tecnologia - de "páginas" na internet para sistemas integrados de relacionamento e publicação coletiva - começaram a ser desenvolvidos projetos de tecnologia social e educação que se opunham tanto à visão assistencialista típica das décadas passadas quanto a uma certa influência de uma cultura individualista, que põe a competição como fator preponderante dos tempos atuais e elege o dinheiro, o consumo e a ostentação como ideais não-declarados. Passou a emergir uma visão em que a atuação individual é interdependente do coletivo, e em que o conhecimento é construído de maneira coletiva e participativa. Chega a parecer óbvio, mas há poucos anos não era. A ilusão de empregabilidade (como se saber usar um computador garantisse uma vaga em um cenário em que "emprego" é a sombra de um reflexo) era palavra de ordem nesses primeiros projetos. O fato realmente notável foi que, com o tempo, esses projetos passaram a defender conceitualmente alguns traços que historicamente já fazem parte da formação cultural brasileira.

Muito do que hoje entendemos como cultura brasileira, ou então o que há de comum às diferentes culturas brasileiras, tem uma base muito mais colaborativa, dinâmica e coletiva do que costumamos perceber. Um olhar abrangente para os lados nos dias de hoje só confirma essa idéia. Sem deixar de lado todos os abusos, violência e exploração, o Brasil viu desde sempre uma grande mistura das culturas portuguesa, negra e indígena, e depois ainda mais com outras correntes migratórias da Europa. Alguns exemplos são elucidativos:

  • Correndo o risco de ser superficial demais, a antropofagia da Semana de 22 pode ser entendida como um grande movimento de remix: pegando referências estabelecidas e consolidadas da cultura européia, desconstruindo-as e adaptando-as ao que havia de culturas tradicionais no Brasil, criando assim novas referências culturais prontas para mais transformações e remixagens.
  • A Umbanda também tem características que em muito se assemelham ao movimento de software livre: mistura uma série de referências culturais (sincretismo religioso de rituais ancestrais africanos sincretizando com a liturgia católica, e ainda sofrendo influências desde Kardec até o Budismo tibetano), se desenvolve de maneira descentralizada e se transforma em cada contexto local. Nunca contou com uma autoridade central que definisse as diretrizes dogmáticas, e seus rituais, liturgia e cosmogonias estão em constante transformação.
  • Outros momentos importantes da nossa formação cultural, como a tropicália e o manguebit, também comungaram dessa facilidade em absorver e reinterpretar referências culturais, chegando a um ponto em que nem se reconhece mais o que vem de fora e o que foi feito aqui mesmo. Somos integrados à cultura mundial, e sempre aparecemos como elemento inovador. Que o diga a Bossa Nova, que transformou o jazz.

Várias outras particularidades podem ainda ser mencionadas: o grau de informalidade da economia brasileira (quem falou que isso é tão ruim?), o trabalho voluntário nas escolas de samba, a feijoada com a galera pra construir o quarto da filha. Mas quero falar especificamente de dois traços marcantes: o mutirão e a gambiarra.

Engraçado ver que ambientes geridos coletivamente, como centros comunitários, residências super-habitadas e tantos outros, podem até chegar a um ponto de desleixo e falta de cuidado que atrapalham muito. Mas se alguém sugere um mutirão, tudo se transforma. Existe quase uma obrigação moral a colaborar. Mesmo quem inventa uma desculpa pra se ausentar acaba sentido-se culpado depois de ver os resultados. O mutirão é um conceito entendido em todo o país.

Gambiarra, segundo os dicionários, é uma extensão elétrica com um soquete de lâmpada na ponta. Na prática, pode significar qualquer tipo de adaptação informal, geralmente feita com baixo custo para cobrir um imprevisto. Não que seja provisória - muitas vezes, como a gambiarra funciona, ela acaba permanecendo por anos. Existem casos de gambiarras feitas para resolver os problemas causados por outras gambiarras. Mas a gambiarra é a consolidação de uma criatividade que, se não nos é exclusiva, acaba por ser quase proverbial: a gambiarra como otimização criativa, maneira de extrair o máximo de recursos escassos.

A grande pergunta a se fazer é: com todo esse repertório de cultura colaborativa, de remix, de ação coletiva, e contando com as figuras presentes do mutirão e da gambiarra, como é que se dá a apropriação brasileira das novas tecnologias de informação e comunicação?

Com o passar do tempo, algumas respostas começam a emergir. Desde que o software livre se tornou assunto sério em projetos sociais, no fim de 2002, diversas iniciativas deram exemplos excelentes de como a inventividade tipicamente brasileira pode se valer das possibilidades das novas tecnologias. Ao contrário do que defendem algumas lideranças da chamada sociedade civil organizada (que já teve sua própria existência questionada por pesquisadores como Bernardo Sorj), o jeitinho brasileiro não precisa se enquadrar no que é tido como o empreendedorismo "correto". Muito pelo contrário, o que aparece como grande oportunidade é atualizar a gambiarra e o mutirão com os horizontes que as novas tecnologias abrem, e tomar nossas particularidades como trunfo. A popularidade - excessiva, defendem alguns - do que pode ser chamado de "software social" no Brasil pode não ser somente uma moda ou reflexo de uma hipotética superficialidade cultural, mas um traço essencial, que deve ser entendido e apropriado. Em outras palavras, o fato de os brasileiros que já acessam a internet ficarem mais tempo online do que qualquer outro povo, geralmente usando ferramentas como fotologs, weblogs, messengers ou o orkut não é necessariamente uma desvantagem. Só precisamos é de uma compreensão mais aprofundada do que isso significa, e propor soluções que levem isso em conta.

Alguns exemplos começam a surgir, conectando o mundo institucional e os circuitos alternativos. Alguns movimentos que, antes de tentar esconder sua matriz cultural e adaptar-se ao que o mundo espera deles, batem pé e se orgulham da herança antropofágica e remixada que nos é oferecida, e com todos os conflitos, atritos e problemas que surgem no caminho, insistem na consolidação de um jeito brasileiro de entender, usar e transformar as tecnologias de informação e comunicação. O tempo dirá se essa perspectiva está correta.

A Daslu e o Camelódromo

Esse artigo foi publicado na revista A Rede, em novembro de 2005.


Nos últimos anos, o Brasil se tornou referência mundial em iniciativas que usam o software livre para combater a exclusão digital. O modelo de telecentro foi adotado em esferas governamentais e do terceiro setor, e milhões de pessoas tiveram a oportunidade de usar as tecnologias da informação e comunicação (TIC). Mas para quê? Muitos projetos de inclusão digital tratam todo o universo de possibilidades sociais das TIC como mera questão de estar dentro ou fora. Podemos estar nos esquivando da parte mais interessante do debate: entender de que forma essas tecnologias podem ser adaptadas para melhorar a vida das pessoas.

Um caminho é a perspectiva de apropriação tecnológica. Enquanto as pessoas não tiverem consciência de que podem elas mesmas manipular a tecnologia, a transformação proporcionada por essas iniciativas terá alcance limitado. Muitos telecentros funcionam como cibercafés gratuitos: ainda existe a distância entre o pessoal "de dentro" e o "público". A preocupação é que as comunidades tenham acesso à internet. Mas pouco se fala que as pessoas não precisam ser apenas usuárias, e que podem ser co-autores. Se o que buscamos é transformação sustentável, gerar autonomia é fundamental. Aprender a preencher um currículo em um editor do texto não traz vantagem a longo prazo para ninguém. Além disso, é triste ver pessoas que aprendem a digitar, mas não têm nenhuma familiaridade com o ato de escrever. Sabem usar o software, até que digitam rápido, mas nada do que escrevem tem alma. Instigaram seu desejo de fazer parte do seleto clube dos usuários de computadores, mas não o seu desejo de expressão e de criação.

Muitos coordenadores de projetos esquecem que a comunicabilidade é um traço marcante da cultura brasileira, com o papo de bar, a fofoca e a mania de dar pitaco. Aliás, mesmo dentro dos telecentros, o papo de boteco continua: os brasileiros criaram fama ao usar serviços como o blogger, o fotolog ou o orkut. E eu já ouvi coordenadores de projeto perguntando se havia como bloquear o acesso a esses sites. Querem que as pessoas usem a tecnologia para se comunicar, mas proibir o que elas fazem de melhor? Ah, certo: um usuário correto deve acessar um portal de notícias para ver o resultado do jogo ou o que vai acontecer na novela, e depois preencher seu currículo. Um camelô que tem acesso ao maravilhoso mundo da internet vai deixar de ser camelô e virar office-boy, como deve fazer um incluído, certo?

Errado! Por que não pensar em como a tecnologia pode melhorar a vida do camelô? Por que todo mundo precisa querer ser uma Daslu, catedral, modelo excludente e baseado em pura competição? Por que esse pessoal tem tanta vergonha do camelódromo da esquina, ao qual todo mundo vai? Aliás, a metáfora de Eric Raymond, que opõe a catedral aos bazares para demonstrar o software livre, pode muito bem ser tropicalizada como "a Daslu e o camelódromo". A primeira é baseada na centralização do poder, na competição e na inatingibilidade. O bazar vira camelódromo, dinâmico, orgânico, vivo e participativo. Como aproveitar as características culturais brasileiras para obter o máximo das tecnologias? O primeiro passo é buscar processos voltados às dinâmicas de mutirão, que existem em qualquer canto, do puxadinho à escola de samba. Uma proposta seria trocar todos os cursos de editor de texto por oficinas de weblogs. E estimular as pessoas a usarem a internet para promover a troca de conhecimentos, ações colaborativas e a mobilização coletiva.

Case conversê

Esse texto eu escrevi em 2005 depois da primeira fase de desenvolvimento do Conversê.
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Metáfora 1.0

Escrevi esse texto contando sobre o projeto Metá:Fora. Na época, acho que no começo de 2005, o Bica revisou, mas não lembro se cheguei a publicar em algum lugar.

Arquivo anexado (PDF, 158KB).

 

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Software livre e Mídia Tática

Esse artigo foi publicado na revista eletrônica ComCiência, em junho de 2004.

O software livre já é uma opção pertinente para o usuário médio, ou seja, aquelas pessoas que utilizam um ambiente gráfico, cliente de email, player MP3, gravador de CD, descompactador de arquivos e aplicativos de escritório. Existe substituto à altura para grande parte do software proprietário necessário para quase todas essas tarefas realizadas cotidianamente. Para falar a verdade, em alguns casos o software livre supera as opções proprietárias em muitos, caso do navegador Firefox, entre tantos outros exemplos. Esse contexto é potencialmente revolucionário: qualquer pessoa pode hoje usar efetivamente um computador sem contribuir com as remessas de lucros enviadas anualmente para o exterior e evitando também a alternativa mais comum: o uso de software pirata. Isso tem impacto direto nas iniciativas públicas de universalização do acesso à tecnologia, como podem atestar os milhares de usuários dos telecentros de São Paulo.

A flexibilidade do software livre também é solo fértil para inovação. Com base no GNU/Linux e em soluções abertas, temos feito no MetaReciclagem algumas coisas que seriam impossíveis em software proprietário, não necessariamente pelo custo, mas pela impossibilidade de otimizar o código: um telecentro com 15 estações Pentium 100 Mhz diskless rodando em um servidor que é pouco mais potente do que um desktop doméstico; um videowall interativo com nove monitores, rodando em um servidor e duas estações, todos Pentium MMX 200 Mhz, com não mais do que 40Mb de RAM, e outras brincadeiras. Não são coisas simples de executar. Dalton Martins e nossa equipe de técnicos insanos passaram horas pesquisando essas e outras soluções. Mas os resultados aparecem, principalmente pelo empenho deles em fazer acontecer, e por podermos contar com conhecimento livre, o que expande nosso universo de colaboradores dos pouco mais de dez que estão diretamente envolvidos com o MetaReciclagem para os milhares que já aprimoraram algum pedaço de código. Nós nos valemos da força colaborativa do software livre para alavancar nossa própria criatividade.

Temos trabalhado com algumas iniciativas voltadas para o que pode ser chamado de Mídia Tática: o uso de ferramentas de comunicação em prol de movimentos sociais. Brigamos algumas vezes pelo uso de software livre nesses projetos: já chegamos a ponto de quase ter que forçar um projeto a adotar software livre. Apesar de haver uma grande coerência entre um esforço para a socialização do uso das mídias e o exemplo de criação colaborativa que é o software livre, sempre acabo sentindo uma certa resistência. Muitos dizem que não existe software para produção midiática. Isso é um engano tremendo. Gosto de mostrar o Dyne:bolic para essas pessoas. Alguns, um pouco mais informados, dizem que até existe, mas não dá pra confiar. Outro erro. Afirmam isso aqueles que nunca chegaram a testar o software livre. Poucos são os que realmente saíram da zona de conforto e efetivamente testaram. Esses, sim, podem reclamar, e concordo totalmente com o que eles costumam dizer: a interface dos softwares de produção em multimídia é muito menos intuitiva do que daqueles que são utilizados em ambiente profissional, a instalação é muito complexa, há dificuldades para adequar o material a padrões de mercado (separação de cores para gráfica, ou codecs de vídeo, por exemplo).

Acontece que não há maneira de surgir de repente o aplicativo ideal. A maioria dos "artivistas", como alguns deles gostam de ser chamados, tem um verdadeiro fetiche pela ferramenta perfeita. Justamente por isso, não saem da zona de conforto para testar soluções livres. Se os maiores interessados não se prontificam a testar e aprimorar o software, quem vai fazer isso? Essa é a mudança de paradigma. Não existe, como é o caso no software proprietário, uma empresa interessada em desenvolver o melhor para colher mais lucros.

Os casos de sucesso no desenvolvimento aberto foram aqueles em que os usuários eram os próprios desenvolvedores, ou então aqueles em que os usuários se dispunham a uma interação aprofundada com os desenvolvedores, frequentemente sendo questionados sobre cada uma das funcionalidades que queriam. Acontece que a grande maioria dos "artivistas" - com honrosas exceções, deixo claro - não se dispõem a tais sacrifícios. Deve ser algo prejudicial à imagem deles serem vistos conversando com geeks (alguém que gosta de tecnologia). Além disso, é bem mais fácil comprar um CD pirata em qualquer camelô por aí e instalar ao invés de perder duas horas explicando para um magrelo de óculos porque é que tem que ter um preview de efeitos de vídeo, não é mesmo? Alguns deles até se sentem orgulhosos de usar CDs piratas. Propagam que estão subvertendo o sistema. Pura ilusão. Fazer vista grossa às cópias para uso pessoal e depois cobrar pelo uso empresarial é uma das estratégias mais conhecidas de conversão de usuários e manipulação do mercado de software.

Usar software pirata, no momento em que estamos, só tem uma justificativa plausível: preguiça.

Até aí, tudo bem, um dos impulsos naturais do ser humano. Mas não é só isso. Se é o caso de um artista isolado usando software pirata para editar os vídeos captados na sua câmera comprada na última visita a Nova Iorque, eu não tenho o direito de reclamar muito. A vida é dele, se quer continuar a ser escravo de luxo de multinacionais desde que possa afirmar que está subvertendo o sistema, que fique à vontade. Mas se estamos falando de projetos de cunho social que tratam da capacitação de comunidades periféricas para o uso de mídia e replicação de estruturas de mídia alternativa (uma das possíveis extensões para a chamada terceira onda da inclusão digital), usar software proprietário é uma obscenidade. Por trás de toda a aura de responsabilidade social e mídia de protesto, esses artivistas estão agindo como propagandistas da indústria do software, criando mais e mais gerações de dependentes da ferramenta padrão de cada área, que vão precisar recorrer ao pirata se quiserem fazer um estúdio amador de áudio, por exemplo.

Como mudar essa situação? Bom, já ficou claro que o Brasil tem uma efervescência na produção de software livre. Talvez o pessoal de produção de mídia tenha que sair um pouco do comodismo e procurar essa moçada que, a cada dia inventa novas maneiras de fazer as máquinas conversarem. Isso é muito diferente de mandar uma cartinha para o SAC de um fabricante de software dizendo o que você quer na próxima versão do produto. O processo é tratar a tecnologia como artesanato. E rever todos os conceitos que você tem sobre o que é necessário para trabalhar com mídia. Garanto que é um processo criativo sensacional, embora não garanta maior reputação no clubinho hype da semana. O software livre continua se movimentando por aí, eventos pipocam para todos os lados. Acho que é o momento de aproveitar e recrutar alguns bons desenvolvedores para ajudar a migrar a produção de mídia também para software livre. Quem está comigo nessa?

Tecnologia social

Uma versão reduzida desse artigo foi publicada no caderno Mais, da Folha de São Paulo, em 19/04/2004

Os cadernos de informática e demais viciados em novidades costumam encontrar a cada meio ano a grande revolução que vai mudar os rumos da humanidade. A bola da vez parecem ser as chamadas social networks (redes sociais), como Orkut, Friendster, ICQ Universe, Flickr e afins. Trata-se de ambientes que mapeiam a rede de relacionamentos das pessoas e permitem a organização de grupos com interesses compartilhados, debates sobre esses interesses, e alguns outros meios de interação. Nenhuma dessas características é novidade para quem já se utiliza da internet para interagir com outras pessoas e conhece as listas de discussão, weblogs, comentários e publicações coletivas. Talvez a inovação do chamado software social esteja na interface integrada de todos esses recursos, e no Foaf (friend of a friend), um padrão de metainformação que surgiu paralelamente a esses sistemas. Particularmente, eu considero o software social mais um passo na evolução do que pode ser chamado de maneira abrangente como tecnologia social, um conceito que vai muito além de dispositivos conectados a redes telemáticas.

Ouvi falar pela primeira vez em tecnologia social da boca de Bráulio Brito, amigo e professor de semiótica mineiro, no meio de uma das crises de identidade do que costumava ser conhecido como Projeto Metá:Fora. É possível que o uso que eu faço da expressão seja diverso do aceito nos círculos acadêmicos. Se esse é o caso, não peço desculpas, apenas alego que, não sendo um profissional das palavras, não me incomodo em ocasionalmente agir como um pirata: roubo idéias, abuso delas a meu belprazer e depois as abandono. O fato é que tenho observado alguns padrões emergentes, em diferentes áreas do conhecimento, o que acaba anulando um pouco o meu fetiche por informática quando um novo sistema surge.

Antes de criticar o maravilhoso mundo da tecnologia da informação, esse apregoado elixir que trará a redenção de todos os povos em uma grande inteligência coletiva e democrática da era de aquário, devo declarar que sou um usuário assíduo da comunicação telemática. Brinco com a internet desde 1996, quando usava os terminais de fósforo verde através do Vortex, no CPD do Campus Saúde da UFRGS (Universidade Federal do RS); estive envolvido com dezenas de projetos relacionados a tecnologia da informação; recebo quase três mil emails mensais, sem contar com spam e surtos viróticos. Não obstante, sinto até raiva quando vejo iniciativas interessantes serem empacotadas e transformadas em produtos conceituais proto-revolucionários, com significado e resultados limitados, tomados sem que se observe todo o contexto.

Quero começar discordando do uso comum de termos como "comunicação digital" e "comunidades virtuais". Em um pequeno mas eloquente livro chamado "Cérebros e Computadores", Robinson Moreira Tenório trata de desmistificar o jargão adotado por um certo senso comum no mercado e na mídia, de que computadores significam informação digital, e o "velho mundo" neoludita - as pessoas "desconectadas", defasadas - são exemplo de um comportamento "analógico". Ora, não sendo um daqueles pilotos de naves em Matrix que lêem código binário, o uso que eu faço de um computador é profundamente analógico. Mover o ícone de um arquivo para a lixeira são os exemplos mais triviais. Por outro lado, há a questão do virtual. Há quase dois anos, eu e Hernani Dimantas criamos uma lista de discussão que veio a ser o Projeto Metá:Fora, que até hoje tenho dificuldade em definir: um conceito de produção colaborativa, um grupo de cento e cinquenta lusófonos espalhados pelo mundo criando projetos baseados no conhecimento livre, uma série de subprojetos abertos. Me entorta o estômago quando alguém define o Projeto Metá:Fora como uma comunidade virtual. Como assim, virtual? Está certo, usávamos meios de comunicação que contam com um alto grau de virtualização para debater novas idéias e mobilizar pessoas interessadas em agir com interesses comuns. Mas o sentido de comunidade era atual, real. Interagíamos pela internet, mas também usando papel e conversando em um bar.

Outra coisa que me aborrece são aquelas pessoas que, quando ouvem falar sobre tecnologia, pensam logo em computadores e assemelhados. O computador é um aparelho desagradável. Abstraídas as exceções, é composto por duas caixas beges feias, desajeitadas, que contribuem para o aquecimento da atmosfera, emitem radiação e um ruído irritante. Se isso é o supra-sumo da tecnologia, eu serei o primeiro a reclamar. Mas tecnologia para mim não se define nem encerra em computadores. Pelos padrões acadêmicos, sei que posso incorrer em mais um erro conceitual (não, eu não li tudo o que deveria sobre o assunto - evitem esse tipo de crítica), mas chamo de tecnologia qualquer artifício que modifique a natureza com uma intenção específica, e de tecnologia social qualquer desses artifícios que tenha por objetivo aproximar pessoas com interesses em comum e articular meios para que possam promover a ação em busca desses interesses. Nesse sentido, a tecnologia social abrange desde um caderno até um telefone celular. Sim, computadores podem fazer parte da equação, mas convém que se evite equiparar uma coisa à outra. Computadores podem ser o meio para a tecnologia social, mas essencialmente ela trata mais de uma maneira de usar as ferramentas de comunicação, e isso envolve auto-organização, colaboração e cooperação, construção e validação coletivas de conhecimento, quebra de hierarquias, descentralização e o caráter emergente das tomadas de decisão.

É possível pensar em diversos exemplos práticos que trabalham a questão da tecnologia social em vários aspectos além da questão da informática. Há os casos benéficos e há os destrutivos. Vou ficar com os primeiros:

* Mídia alternativa. É claro que a proliferação de weblogs e publicações coletivas e abertas tem seu significado. Mas vale a pena dar uma olhada nas rádios comunitárias - aquelas comunitárias mesmo, não valem as que tentam emular o ambiente e a programação de uma rádio comercial -; nos jornais de associações de bairro e pequenas entidades que não têm orçamento suficiente para formalizarem-se como ONGs; nos fanzines que acompanham as cenas culturais independentes.

Aliás, falando sobre mídia, acabei me envolvendo nos últimos anos com todo um contexto que é definido como mídia tática, que eu entendo como a reapropriação, por parte da sociedade, das ferramentas de comunicação. Há grandes exemplos por todo o mundo de movimentos sociais que utilizam as armas informacionais comuns ao mercado para denunciar os pecados do "inimigo"- seja ele uma empresa que pesquisa transgênicos, uma fabricante de sapatos que se serve de trabalho semi-escravo na Ásia ou a Organização Mundial do Comércio. Acontece que a cultura brasileira, pelo menos aquela que tenho visto por aí, tem uma natureza muito mais conversatória do que falastrona. Quero dizer com isso que tenho encontrado pessoas que vêem muito menos naturalidade em ser ouvidas do que em interagir: simultaneamente ouvir e falar. Seja isso medo de ser mal interpretados ou parte da formação cultural de um povo que criou entre outras coisas a Umbanda, uma das crenças mais descentralizadas e abrangentes de todo o mundo, o que interessa é que nós que pretendemos trabalhar na transformação social com o apoio da tecnologia de informação devemos estar cientes desse fato se queremos algum tipo de resultado.

* Comunicação em rede. Sim, estou falando da internet e suas fantásticas ferramentas de mobilização coletiva, aqui incluídas as redes sociais já mencionadas, mas também me fascina velocidade com que os camelôs descobrem que a fiscalização está na rua, ou dos apitos no Posto 9 avisando que a polícia tá na área.

* Colaboração. Sim, o software livre é um case maravilhoso. Mas o maravilhamento gringo frente à complexidade operacional de uma escola de samba ou, como apontou André Passamani, o mutirão para a construção do puxadinho - mais água no feijão, pagode e generosidade - podem ser exemplos ainda mais representativos.

A tecnologia social é, ninguém poderia negar, uma área extremamente abrangente. Eu tenho dedicado meu tempo a projetos que seguem uma série de princípios:
- Ênfase no que Hernani Dimantas chama de conversações, inspirado pelas conversations do manifesto cluetrain: mais do que simples expressão plural, a agregação de vozes em diferentes áreas do conhecimento em torno de objetivos em comum.
- Uma orientação emergente no que eu e Daniel Pádua definimos como Xemelê: a preocupação de que todos os envolvidos em determinada conversação mantenham uma linguagem acessível àqueles que não são de sua áreas, evitando jargão demasiado específico.
- Copyleft. O copyleft e os avanços conceituação e aceitação da ideia de conhecimento livre não é ingenuidade, é simples aceitação do fato de que o conhecimento é sempre misto de construção pessoal e coletiva, e que tanto a impossibilidade da propriedade intelectual quanto a anulação do papel individual em uma hipótese totalmente aberta são extremos que não nos interessam.

Em suma, as redes sociais são, sim, interessantes. Vale a pena participar. Eu tenho retomado o contato com pessoas que não via há muito tempo, tenho encontrado opiniões interessantes sobre assuntos que me dizem respeito e venho também tendo a oportunidade de conhecer novas pessoas baseado nas afinidades que se tem a oportunidade de expor em tais sistemas. Mas que não se esqueça que este é só mais um passo de um longo processo.

Hipertexto:
- Orkut: http://www.orkut.com
- Friendster: http://www.friendster.com
- ICQ Universe: http://universe.icq.com
- Flickr: http://www.flickr.com
- Foaf: http://www.foaf-project.org/
- Hernani Dimantas: http://www.marketinghacker.com.br
- Howard Rheingold: http://www.smartmobs.com
- André Passamani: http://colab.info
- Manifesto Cluetrain: http://www.cluetrain.com
- Daniel Pádua: http://www.dpadua.org
- Copyleft e conhecimento livre: ver http://www.creativecommons.org

Case Liganóis

Em algum momento de 2003 eu montei o Liganóis, um site colaborativo para pessoas interessadas em comunicação comunitária, inclusão digital e assuntos relacionados. O site acabou saindo do ar depois de algum tempo, mas o aprendizado foi grande. A idéia desse texto, que escrevi no fim de 2003, era tentar contar um pouco do processo que gerou o Liganóis.

Em anexo (PDF, 130KB)
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Anotações no coletivo

Anotações no Coletivo

Artigo escrito em novembro de 2003, na seqüência de uma palestra que dei junto com Hernani Dimantas no Cybercultura 2.0, no Senac, a convite de Lucia Leão.

Aí uma costura das anotações tomadas na linha Lapa - Santo Amaro, quinta-feira passada, a caminho do Cybercultura 2.0, com algumas coisas que realmente cheguei a comentar na mesa redonda com o Hernani, e mais algumas elucubrações posteriores. Meu nome é Felipe Fonseca. Dizem que fui co-fundador do Projeto MetaFora junto com o Hernani. Mas outros dizem que o Projeto MetaFora nunca existiu, foi uma espécie de alucinação coletiva.

A cultura brasileira como uma cultura hacker (ou poderíamos definir: a ética hacker nas culturas populares brasileiras*).

Em primeiro lugar, quero me desculpar porque vou avançar em alguns assuntos sobre os quais não sou especialista. Não me preocupar muito com isso é uma das coisas que aprendi com os hackers com quem trabalho. Bom, vamos adiante.

A era das grandes verdades

Até há pouco tempo, a comunicação concentrava-se em torno das fontes "oficiais" de informação e conhecimento: a igreja, o estado, a escola e a academia, e no último século a mídia de massa. As estruturas de comunicação eram facilmente identificadas. Um mapeamento dos fluxos de comunicação revelariam três grandes vertentes:

* as "fontes oficiais" propriamente ditas;

* as derivações das fontes (aquele tiozinho que repete no boteco o argumento do padre ou do âncora do telejornal), paráfrases das grandes verdades;

* as vozes contrárias, antíteses das grandes verdades.

Essas últimas eram responsáveis por uma espécie de equilíbrio e um movimento de renovação. Podem ser identificadas aqui as vanguardas do século XX e a contracultura do pós-guerra, que, de alguma forma, acabavam impedindo uma total tirania na comunicação.

A era das múltiplas verdades

Nas últimas décadas, entretanto, as fontes "oficiais" começaram a se multiplicar e pulverizar. Acredito que alguns fatores influenciaram bastante nesse movimento:

* os questionamentos sobre a ciência no século XX;

* os questionamentos sobre a arte e seu papel;

* o intenso desenvolvimento e a facilitação do acesso às Tecnologias de Informação e Comunicação;

* o acirramento da competitividade nos mundos corporativo e acadêmico, e entre as empresas de mídia de massa.

Um hipotético mapa da comunicação nos dias de hoje revelaria um cenário complexo, tendendo ao caos. Apesar de o ambiente da comunicação continuar dominado pelas mesmas estruturas (hoje, sobremaneira, as megacorporações), não é tarefa simples identificar onde se encerra esse poder. Em tal cenário, o papel de uma suposta contracultura precisa necessariamente se reinventar. Há 30 anos, era fácil identificar "o inimigo": a ditadura no Brasil, a guerra do Vietnã e as estruturas militares nos EEUU, etc. Hoje, para onde devem apontar as armas da contracultura?

Aliás, ainda existe uma contracultura?

Eu acredito que não haja uma resposta objetiva.

Mas a comunicação tem papel fundamental na aceitação e manutenção dessa realidade. Em O Sistema dos Objetos, Jean Baudrillard identifica que a dominação através da manipulação publicitária não se dá no âmbito de cada peça de comunicação influenciando uma decisão do "consumidor", mas no contexto do conjunto das peças publicitárias seguindo fórmulas assemelhadas e ratificando um modo de vida ocidental, branco e consumista. Uma situação claramente emergente, em que a ação de cada parte é menos importante do que a ação do conjunto.

A mídia tática surge nesse cenário, também como uma força emergente, potencializada com o novo ativismo que surge ao fim da década passada, nos protestos em Seattle, Gênova, Davos, Washington e tantos outros. Grupos de ativistas midiáticos e artistas de todo o mundo passam a utilizar ferramentas às quais anteriormente só as elites tinham acesso para questionar a credibilidade da comunicação. Usam, camuflados ou não, as próprias armas do inimigo para conscientizar as pessoas sobre o que se passa no mundo. A mídia tática pode ser vista como a retomada do "social" na comunicação. Sua estrutura como sistema descentralizado e emergente encontra justificativa em Steven Johnson, no Emergência:

(...) se você está tentando lutar contra uma rede distribuída como o capitalismo global, é melhor mesmo se tornar uma rede distribuída.

A ética hacker

No mundo do desenvolvimento tecnológico, uma contracultura atuante desde os anos 70 construiu colaborativamente a Ética Hacker. Não vou entrar em detalhes, mas alguns dos princípios postulados pelos hackers encontram eco e respaldo na mídia tática:

* a descentralização coordenada;

* ênfase na reputação pessoal, baseada no histórico de ações, ao invés de hierarquia baseada em títulos ou honras;

* colaboração e conhecimento livre e aberto;

* questionamento profundo sobre a validade da propriedade intelectual;

* Release Early, Release Often - é mais importante realizar do que ter um plano perfeito;

* informalidade.

Hackerismo brazuca

Estive em setembro no Next5Minutes, festival internacional de mídia tática realizado em Amsterdam. Alguns dias antes de embarcar, comecei a debater com o pessoal no MetaFora sobre o que falar por lá. As primeiras idéias circularam em torno da ética hacker e uma apresentação do grupo MetaFora. Na manhã da partida (ou a manhã anterior, não estou certo), acordei com a opinião de que tal linha de argumentação tinha duas falhas. Em primeiro lugar, eu não havia sido chamado para representar o MetaFora, e sim o Mídia Tática Brasil, festival realizado em março de 2003 do qual participamos. Além disso, não faria sentido simplesmente fazer côro a diversas outras vozes que já apregoam os princípios da descentralização e da colaboração. Já há algum tempo, tínhamos percebido que, em termos de colaboração, nós, elite cultural revoltadinha brasileira, temos mais a aprender do que a ensinar com as culturas populares* no Brasil.

O hackerismo tecnológico tem grande aceitação no Brasil, como pode detalhar o Hernani. O governo está adotando Software Livre, o país é um dos maiores em volume de ataques de crackers. Sexta-feira, Maratimba comentou comigo que ouviu da boca de Miguel de Icaza que o Brasil tem o maior parque instalado do ambiente gráfico Gnome. No N5M, alguns programadores de Taiwan que estavam na mesa redonda New Landscapes for Tactical Media, da qual eu e Ricardo Rosas também participamos, vieram a mim perguntar, maravilhados, se tudo o que se falava sobre Software Livre no Brasil era verdade. Assenti, orgulhoso. Eu vejo algumas raízes culturais hackers no Brasil desde muito antes da criação do primeiro computador.

Os mitos afro-brasileiros**

Durante alguns séculos, pessoas de várias regiões da África foram violentamente seqüestradas e trazidas ao Brasil, comerciados como escravos e encarcerados a uma vida de trabalho duro, restos de comida e praticamente nenhum direito. Não bastassem as agressões físicas e a humilhação contínua, eles eram proibidos de exercer suas crenças, originalmente anímicas. Alguns convertiam-se à "verdadeira fé" católica, mas muitos desenvolveram uma alternativa, análoga à engenharia social hacker: o tal sincretismo religioso. Camuflando seus orixás com vestes católicas, puderam continuar praticando seus rituais e venerando seus deuses da guerra, do trovão e do vento. Embora tenham aparecido diversas lideranças na Umbanda, não havia uma centralização de poder ou dogma. Assim, as linguagens espirituais afrobrasileiras foram se desenvolvendo de maneira colaborativa. Têm uma base comum (o kernel hacker) e diversas adaptações locais (a customização descentralizada hacker), chegando a abarcar elementos do kardecismo, de culturas indígenas, de tradições ciganas, do budismo e outras crenças orientais.

A cultura burguesa brasileira

Não é novidade que, no início do século XX, a incipiente intelectualidade brasileira, composta em sua maioria pelos jovens filhos das elites que estudavam na Europa e voltavam ao país, passava por uma crise de identidade, como ocorreu com todas as ex-colônias européias emancipadas entre os séculos XVII e XX ao redor do mundo. Duas perspectivas levavam a um impasse: de um lado, a cultura européia, moderna, vibrante, mas associada à ex-metrópole colonial. De outro, uma cultura bruta, neonaturalista e sertaneja, quase crua. Os modernistas resolveram o paradoxo com a antropofagia, basicamente hacker: não renegaram nenhum dos dois mundos para criar novas formas de expressão. Pelo contrário, ao invés de tentar começar uma nova cultura do zero, misturaram elementos da cultura européia com a cultura brasileira. Vestiram a cultura popular de raiz com a experimentação formal do primeiro mundo.

Fenômeno semelhante ocorreu no final dos anos 70 com a Tropicália. Uniram o samba ao roquenrou, adaptando a linguagem comum da contracultura mundial com o sotaque local.

A economia pirata

Premida por uma situação econômica em condições cada vez piores, pressionada pela dificuldade de encontrar colocação e subsistência na economia formal, grande parte da população no Brasil migrou nas últimas duas décadas para a economia informal. Caracterizada por um dinamismo e por uma espécie de empreendedorismo na gambiarra, esse mundo alternativo de trabalho, que possui seu próprio círculo de produção e distribuição, envolve hoje praticamente metade da população considerada "economicamente ativa" no Brasil, e mais uma grande quantidade de jovens e idosos. Possui suas formas de uma mídia mambembe que, se não se assemelha à mídia tática do primeiro mundo, também chega, de maneira emergente, a questionar os domínios da propriedade intelectual e do poder da mídia de massa, em especial o branding corporativo. Outros elementos da ética hacker presentes na economia pirata:

* colaboração;

* descentralização;

* ênfase na reputação;

* informalidade.

O mutirão

Maratimba descreveu uma analogia do puxadinho feito em mutirão com o princípio do Release Early, Release Often, que corre um certo risco de ser uma visão estereotipada, mas que funciona como símbolo:

Começo | Barraco - "Vamo botar essa porra em pé!"

Sabe como é? Menos é mais. Minimalismo funcionalista.

Expansão | Puxadinho - "Chame os amigos e ponha água no feijão"

Contemplar o máximo de necessidades. Refinamento e oferta de adicionais.

Refundação | Alvenaria - "Tá na hora de botar ordem na casa"

Revisão de erros e melhoria da qualidade geral. Consistência de dados e de interface E agora? Subi um barraco? Puxei um quarto pras crianças e um banheiro do lado de fora? Troquei os aglomerados e madeirites por tijolo e telha? Basta seguir a vida e esperar. Se precisar de mais teto, você pode construir a famosa casa nos fundos ou o mais popular segundo andar.

Comunidades periféricas interconectadas

As autoridades, a academia e a sociedade civil já acordaram para as possibilidades de transformação que as tecnologias de informação e comunicação trazem para a melhoria de vida das populações periféricas. As duas primeiras fases da "inclusão digital" tinham lá suas falhas, mas podem ser encaradas como um bom começo. Há um paralelo com um movimento que Mario de Andrade fez no século passado, de planejar expedições ao Brasil rural em busca de uma suposta cultura brasileira. Hoje, sabendo que cerca de 70% da população brasileira vive na periferia das grandes cidades, esses projetos têm o potencial de mapear e consolidar as características de cada comunidade e integrá-las às conversações mundializadas. É questão de adaptar as tecnologias às necessidades das pessoas, e não o contrário. Vamos nos esforçando.


* Observações da moderadora Rita de Oliveira. Obrigado, Rita.

** Lucia Leão comentou que o site preferido de Roy Ascott é um site sobre Umbanda. Não tenho o link aqui, vou pedir à Lucia.


Comentários

Lucia Leão

O site indicado pelo Roy é: http://www.umbandaracional.com.br/

Histórias velhas

Umas historinhas antigas que eu enviei pro COL lá por 1999/2000. Agora saindo com ilustrações da Cau.

Legumes

Publicado originalmente no COL 143, em 21/02/2000. Época meio neurótica. Acho que comecei a escrever durante um blecaute em sampa, mas isso pode ser engano. As duas ilustrações são da Cau.

Legumes 1, por StriemerLegumes
Acreditem em mim. Ah, olá, meu nome é Veco. Aliás, meu nome não é Veco, mas as pessoas me chamam assim porque... Porquê porra nenhuma! Não interessa. O que vocês precisam saber é que eu me chamo Veco e tenho uma história pra contar. É, uma história, com moral e tudo. Mas já que eu não sou escritor infantil, vou dar a moral (!!! nunca tinha pensado na origem dessa expressão) logo no início. É essa, sempre que vocês tiverem duas escolhas, uma certamente ruim e outra que parece boa, escolham a ruim. E aí, gostaram? Acharam um incentivo ao conformismo? Bom, foda-se, ninguém vai responder, e, se responder, eu nunca vou ouvir. Ah, pensando bem, eu tenho outra moral para essa história. Mas essa eu conto no final.

Bom, vamos à história, que começou no meu apartamento. Um apê enorme, no vigésimo primeiro andar de um edifício construído no início dos anos setentas. Desde essa época, ele foi habitado pela minha tia. Em noventa e nove, a megera morreu. Chamo de megera, porque quando eu era piá eu fiquei uma noite na casa dela, porque meus pais tinham que sair e não havia mais nenhum parente com quem me deixar. A velha fez uma sopa de legumes. Eu nunca gostei de legumes, então tomei o caldo da sopa e botei aqueles pedaços de coisas nojentas no lixo (é, eu era um guri de cinco, seis anos, mas muito educadinho). E voltei pra frente da tevê com um caderno e um lápis na mão. Fiquei ali desenhando. Quando a bruxa viu que os legumes tavam no lixo, ficou possessa. Me deu um puta sermão e me deixou a noite inteira trancado num quarto escuro. Cada vez que eu começava a chorar alto ou gritar, ela dava umas porradas na porta, do lado de fora. Eu pranteei em silêncio até dormir. Na manhã do dia seguinte, meus pais brigaram com ela e nós nunca mais a vimos.

Meus pais morreram, juntos, uns seis meses antes dela. Como não havia outros herdeiros, essa porra de apartamento ficou pra mim. Eu fui morar nele.

Voltemos, então, à história. Eu havia me mudado uns dez dias antes. Já tinha deixado tudo arrumado. O apê estava perfeito. Eu chamei a Lu pra conhecer. Lu é a mulher da minha vida. Eu tenho outras, ela tem outros, mas isso não nos incomoda. Bom, ela foi lá em casa, com um balão desses prateados que flutuam no ar, no formato do Rei Leão.

Esse foi o primeiro filme, se é que posso chamá-lo de filme, que nós vimos juntos no cinema.

Foi a primeira vez em que nos tocamos. Ela chegou lá em casa com o Rei Leão e um vinho, eu já tinha preparado a janta e a noite foi perfeita. Até que eu a convidei pra morar comigo no apê. Porra, a mulher quase teve um ataque. "Porque tu quer tirar a minha liberdade! Eu tenho minha vida, cara. Não vou entrar nesse teu esquema de vidinha a dois!"

Tentei argumentar enquanto ela se vestia, mas a mina parecia louca. Antes de bater a porta, ainda falou "Não adianta, cara. Já fez a cagada, já era."

Vivi três dias como um zumbi. Passava o tempo inteiro deitado vendo tevê, levantava, ia na cozinha pra comer, no banheiro pra cagar e mijar e deitava de novo.


Até que, na terceira noite, ou quarta, incluindo a que ela foi embora, deu um estouro na rua e faltou luz. "Puta que pariu, a tevê." Acendi uma vela azul que tinha na sala e fui pra sacada. Em todas as outras ruas os apartamentos estavam iluminados. "Velha filhadaputa, tinha que comprar esse muquifo bem nessa porra de rua?, falei. Às vezes, parece que meus pensamentos só valem se eu os falo. Mesmo que seja falar bem baixinho, como foi o caso.

Peguei uma cerveja na geladeira, fui pra sala e sentei apoiado na mesa. Acendi um cigarro. Eu já tinha comido, mas tive uma vontade repentina de tomar sopa de legumes.

Olhei pra vela. A fumaça do cigarro, na frente da vela, subia reta. Mas eu sentia um vento, a janela estava aberta. "Tô precisando dum banho." Fui pro banheiro, deixei a vela em cima da pia de mármore. Entrei no box e abri a torneira. "Putz, água gelada." Mas era melhor assim. Banho frio acorda, e, podem ter certeza, dormir era o que eu menos tinha vontade de fazer naquele instante. Embaixo do chuveiro, fiquei alguns minutos parado, observand a luz difusa da chama no box de acrílico.

Fechei o chuveiro, me sequei e voltei pra sala. Fiquei sentado no sofá, pensando como seria bom se eu pudesse ligar o som. Ou se a Lu ligasse. Gastei uns segundos avaliando o que valia mais pra mim, a Lu ou o som. Acho que o som estava ganhando, mas parei antes de chegar a uma conclusão. Na real, eu até podia viver sem a Lu, mas sem música é foda. Me arrependi de não ter escutado música nos três dias anteriores. Foi então que vi um vulto se mexendo ao lado do sofá. Pulei para o lado oposto e paralisei. Fiquei olhando fixo para o lugar, até que apareceu. Era aquela merda de Rei Leão, já meio murcho, balançando com o vento. Joguei ele pela janela e voltei ao sofá. "Há, eu sabia. Nem me assustei", pensei e falei. Nisso, a vela apagou. Já tinha derretido até o fim. "Não dá nada."

Levantei e entrei no corredor. Eu ia dormir, no dia seguinte a luz teria voltado e eu ia sair de casa, dar uma volta. Deitei. Súbito, ouvi um barulho na cozinha. Vesti uma bermuda, uma camiseta e calcei os chinelos. Cheguei na cozinha e identifiquei o barulho. A pilha de pratos sujos não deixava dúvida. Eu estava sentindo uma necessidade urgente de sair daquele apê. Decidi descer os vinte e um andares da escada para conversar com o porteiro. Se eu ficasse, não ia conseguir dormir mesmo. Eu tinha plena convicção de que poderia sentir-me melhor lá embaixo.

Vou me intrometer para explicar que é aqui o ponto da decisão que eu falei pra vocês. Era certo que ficar no apartamento era ruim. E eu achava que seria melhor sair. Continuando, saí direto da cozinha, pela porta dos fundos. Desci dois andares e só então percebi que em nenhum deles havia portas. Só a escada. "Esses edifícios antigos,
..." Tava muito escuro.

"Meu isqueiro!" Porra, era provável que eu ficasse algumas horas lá embaixo. Tinha que levar cigarro e isqueiro. E aproveitava pra iluminar a escada, vai que tem alguma coisa no caminho. Subi dois andares, mas não tinha mais a porta da minha casa. "Devo ter contado errado." Subi mais dois andares. Nada de portas. Desci os dois novamente.

"Porra, me perdi." Resolvi descer tudo e esperar. Não tinha mais ninguém na escada. Só por um momento, senti-me observado. Virei para trás e parecia que uma senhora me observava. Subi correndo as escadas e não havia nada. Nem a velha, nem qualquer barulho de passos que denunciasse haver mais alguém por ali. Continuei
descendo.

Desci. Desci. Já perdera a conta de quantos andares tinha passado.

Cansado, sentei num degrau. Um vento frio bateu nas minhas costas e voltei a descer.

Legumes 2, por Striemer Logo, topei com uma porta. "Ah, o térreo." Cheguei ao saguão do edifício e a porta fechou atrás de mim. Não havia ninguém no saguão. Aliás, só havia um caderno e um lápis num canto. E, com exceção da porta que vinha da escada, não existiam outras saídas. Nem janelas. Tornei a abrir a porta da escada. Não havia mais escada. Atrás da porta, uma parede. Pensei em gritar, mas era melhor ficar quieto. Não quero fazer nenhum barulho. E digo pra vocês, o pior não é estar confinado neste lugar escuro. O que mais me angustia são duas coisas. Primeira, não tenho a mínima noção de quanto tempo já fiquei aqui. Segunda, não sei se estou vivo, morto, dormindo, em coma ou louco. Mas eu sei de uma coisa. Ah, eu sei. Sei que, amanhã de manhã, meus pais vão chegar e me tirar daqui.

Antes que eu me esqueça, a segunda moral da história:

SEMPRE COMAM OS LEGUMES DA SOPA.

--Izq—

Mujeres

Publicado originalmente no COL 146, em 14/03/2000. Na época eu lia bastante Rubem Fonseca. A ilustração é atual, feita pela Cau.

MUJERES
---Izq---
MujeresPaula olha mais uma vez para sua mãe dentro do carro. Pisca o olho. Vê os lábios dela proferindo um "boa sorte". Vira-se e entra na porta giratória do banco. A porta tranca. Paula abre o zíper de cima da bolsa e mostra para o guarda as chaves, o celular, o estojo de maquiagem de metal. Como previsto, o guarda não pede para ela tirar as coisas. Luísa e Márcia já estão dentro do banco, a primeira na fila do caixa, a outra atrás do outro segurança. É quarta-feira, metade do mês, onze da manhã. Não há mais do que quatro clientes na agência. Só um caixa funcionando, uma mocinha com jeito de delicada. Mais dois funcionários atrás do balcão. No lado oposto do banco, dois gerentes.

Paula se posiciona ao lado do guarda da porta e abre o zíper do meio da bolsa. Coloca as duas mãos para dentro. Márcia, no fundo da agência, gira a pesada bolsa, que tem um tijolo dentro, e acerta a nuca do outro guarda. Quando o da porta percebe, já tem duas pistolas apontadas para si, uma para o rosto e a outra para o saco. Luísa pega outra arma da bolsa de Paula e aponta para a moça atrás do caixa. O guarda tenta, lentamente, levar a mão à cintura. Paula age rápido. Tiro na cabeça. O guarda cai, Paula vira-se e joga uma das armas para Márcia, que a pega no ar e dispara no outro guarda, que jazia desmaiado. Luísa tira da bolsa uma dessas sacolas de viagem, dobrada, e manda a caixa encher de dinheiro. A menina não se mexe. Não pisca, talvez tenha parado de respirar. Luísa pula o balcão e segura a caixa pelo pescoço, apontando a arma para sua cabeça. Grita para os funcionários encherem a sacola de dinheiro, notas altas. Eles ficam se olhando, parados. Márcia atira no braço de um deles. O outro diz que não pode fazer nada, só o gerente pode abrir o cofre. Paula manda os gerentes se aproximarem. Eles relutam.

Márcia atira na perna de um deles, o careca baixinho. O outro gerente, acompanhado por Paula, vai até o cofre e o abre. Sob ordem de Paula e consentimento do gerente, o funcionário enche a sacola com notas de cinqüenta e cem reais. Paula, Márcia e Luísa despedem-se, agradecendo a cooperação de todos. Antes de saírem, Paula volta e caminha na direção do gerente, que tem uma expressão apreensiva no rosto. Ele aguarda que ela se proxime. Paula leva a boca à orelha dele, dá uma leve mordida e sussurra: "te espero em Floripa, amor".
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Skol

Outro conto de 99. Também tem um pouco de Rubem Fonseca. Publicado no COL 130, em 29/12/1999, e depois de novo no COL 169, em 05/06/2000. As ilustrações, novas, são da Cau.

SKOL

Será que uma pessoa é diferente de uma garrafa de cerveja? Carlos já matou várias garrafas de cerveja. Vazias. Fácil, asséptico. Puxar o gatilho, sem gritos nem sangue nem porfavornãomemataporfavor. Ilustrada por Carolina StriemerUm mês praticando. Carlos está tão bom na pontaria que acerta uma long neck a mais de cinqüenta metros de distância, mesmo depois de já ter esvaziado algumas delas em seu próprio estômago. Mas será que com gente é tão fácil?
Planejado. Zuza vai descer do ônibus, atravessar a Protásio, ir na direção da esquina onde Carlos já o espera, fingindo que coça o saco pra mão ficar perto do cano. Quando o malandro estiver passando por aquele poste ali, a mais ou menos quatro metros, Carlos tira o berro da cintura. Aponta. Puxa o gatilho, cabeça. Zuza cai no chão. Puxa o gatilho de novo, cabeça. Pra garantir. Arma na boca de lobo, vai embora.
E se o fiadaputa não morrer? Impossível. Duas balas nos miolos. Impossível. Os porco nem vão querer saber quem foi. Ladrão morto não faz falta.
A mão esquerda de Carlos solta o bolso da calça e sobe à altura de seus olhos. Está branca, os dedos enrugados. Merda de chuva. Choveu durante toda a noite, Carlos já não tem uma parte de seu corpo seca. Escorado desde as onze horas na esquina, na parede da loja de autopeças, parece uma estátua. Só se mexeu quando a perna direita começou a ficar dormente. Uns segundinhos flexionando o joelho e voltou para a posição.
Para evitar qualquer problema, saiu de casa sem os documentos. Ele sente a chave no bolso, a corrente gelada no pescoço e o revólver na cintura. Essa arma, segundo o Seu Doca, tinha sido roubada de um coronel aposentado da Brigada. Um .32, Rossi, cano curto, preto, cabo de plástico marrom. Seis tiros. Tá bem conservado, mas dá pra saber que é meio velho porque o cão não tranca, tem que puxar o tiro inteiro, direto. Mas Carlos já se habituou, embora nunca tivesse atirado antes de começar a praticar lá no sítio do Seu Doca, em Viamão. Na verdade, Carlos ainda não atirou em seres vivos. E, além de algumas brigas de boteco, nunca machucou ninguém. Costumava ser o primeiro a sair dessas confusões, talvez por saber que seus noventa e três quilos bem distribuídos em metro e oitenta e sete poderiam ferir algum bebum, de verdade. Carlos nunca cogitaria executar uma pessoa, se não fosse pro Seu Doca, que tanto lhe ajudou desde que ficou desempregado, há dois anos. Seu Doca, precavido, não confia em outro para fazer esse trabalho. Carlos aceitou, pensando na lealdade que devia a esse velho trambiqueiro e também na garantia dele de que teria sempre comida pros filhos e pra Bia, que tava grávida de novo. Mas tinha que apagar o alcagüete, era assim que Seu Doca chamava o cara.
Surge, lá longe, mais um Passo Dornelles/Safira. Tem que ser neste. Já passaram uns quinze nessa noite, e Zuza não apareceu. Passaram também três viaturas da Brigada, uma delas parou no posto de gasolina do outro lado da rua, ficou ali por uns dez minutos, enquanto Carlos torcia para que o dedo-duro não aparecesse justamente naquela hora, que os porco tavam no bico. Mas eles se foram e Carlos continuou. Opa, agora sim. Zuza desce do ônibus e vem caminhando devagar, pouco se importando com a chuva, que continua forte. Carlos lembra-se das garrafas. Será que vai ser tão fácil assim? Será que a arma vai funcionar, depois de tanta chuva, essa merda de arma velha? Fica imaginando que terrível vai ser se ele gostar, e inventar de repetir depois.
Olha para Zuza, atravessando a Protásio e imagina um cadáver caminhando em sua direção. Amanhã esse cara não existe mais. Será que ele falou com a mãe dele hoje? Será que não tem algum filho escondido por aí, que talvez nem saiba que o pai é um ladrãozinho dedo-duro, e vai virar órfão sem ter ao menos lhe conhecido? Uma vida inteira vai fora. É só puxar um gatilho. Carlos sente-se um covarde. Arma de fogo é pra covardes. "Não vou matar o cara. Outra hora, eu acho ele, dou um couro, se ele tiver amor à vida não vai mais abrir a boca". Sua pulsação está alta, sente-se ligeiramente tonto. Está decidido, Zuza vive. O malandro se aproxima. Está passando na frente da escada da loja de materiais de construção, olha para Carlos e bota a mão no canivete dentro do bolso, sem se preocupar em esconder suas intenções.
"Esse paunocu ainda vai querer me assaltar agora". Carlos finge que coça o saco. Levanta levemente a camiseta. Zuza vê o brilho na cintura de Carlos e sai correndo. "Putamerda!" O berro faz um barulhinho quando bate na fivela do cinto, o barulhinho que tantas vezes Carlos ouviu quando treinava o saque na frente do espelho. Tiro. Erra. Carlos já corre atrás de Zuza. Tiro. Erra. O gatilho emperra antes de dar o terceiro. Merda de chuva. Zuza tropeçou na escada. É alcançado por Carlos, que já leva as duas mãos, entrelaçadas, num coice no meio das costas do dedo-duro. Ele vai ao chão, entre o terceiro e o quarto degraus da escada de mármore acinzentado. Chute no rim esquerdo. Zuza está caído, apoiado em seu braço direito, a perna direita dobrada, a esquerda estendida por cima da outra. Agora, chute no rosto, o corpo vai para trás, olhos fechados. Ali fica, parado. Dois dentes no chão, mais adiante. Ainda respira. "O viado já desmaiou!?" Carlos lembra-se da arma. Onde é que ela ficou? Olha para trás. Antes de olhar para o chão, procura alguma testemunha na avenida. Ninguém.
Ilustrado pela Cau O pouco tempo de distração é suficiente para Zuza tirar o canivete do bolso e cravá-lo na perna direita de Carlos. A dor é imensa, seu corpo se torce inteiro para o lado, cai no chão. Zuza corre. Carlos se restabelece e vai atrás. Não o vê mais. Onde é que se escondeu o puto? Segue caminhando, não consegue correr. Passa pela parada de ônibus, pelas carrocerias destruídas na frente do ferro-velho, vê o canivete no chão, passa pela árvore e pelo contêiner de entulho. Tonteia, a dor na perna está forte. Se encosta no contêiner. Quando percebe Zuza se levantar lá de dentro, já é tarde.
Apanha com uma tábua, com pregos na ponta. Zuza bate com raiva, chega a quebrar a tábua. Carlos está deitado de frente, apoiado nos cotovelos. Suas costas em carne, muito sangue. A tábua já não serve mais como arma. Zuza pega dentro da caliça uma garrafa long neck. Skol. Carlos já sabe o que vai acontecer. Em sua mente, os próximos segundos vão demorar a passar. Aparecem cenas de sua adolescência ali mesmo, na Bonja. A primeira vez em que viu Bia, ela dezessete anos e ele dois a mais. O casamento na igreja, Bia já grávida e a mãe dela chorando - os pais dele se recusaram a vir do interior, não gostavam da menina. Por fim, Seu Doca no boteco dizendo, eu sei que tu te garante, guri.
Zuza não hesita. A garrafa estoura, furiosa, na parte de trás da cabeça de Carlos, rasgando-lhe a pele e jogando seu rosto ao chão áspero. Seus pulmões ainda vão puxar ar por um minuto ou dois. Ninguém aparece para ajudar. Será que uma pessoa é diferente de uma garrafa de cerveja?
---Izq

Spectraman

Publicado originalmente no COL 125, em 14/12/1999, baseado em um sonho que eu acho que tive mesmo. A ilustração atual foi feita pela Cau.
spectramanspectraman (é assim que se escreve?)
foi assim. eu tava correndo por uma dessas avenidas, parecia ali onde a bento vira joão pessoa, ou azenha, eu nunca sei. aí eu cheguei em um cruzamento onde passavam vários, milhares de carros. pensei, eu não sei atravessar avenidas. fiquei alguns minutos olhando aquela maré de carros sem saber o que fazer. o fluxo diminuiu e eu me dei conta que era só esperar quando não viessem carros e passar pro outro lado. foi o que eu fiz, mas quando estava no meio do percurso vi um carro de faróis acesos, era um escort antigo, daqueles quadrados, igual ao que eu tive, vindo em minha direção. comecei a correr, o carro passou por trás de mim, sem mais problemas. mas eu não consegui, não queria mais parar de correr. então, ouvi o refrão da bidê ou balde, e por que não?, abri os braços e comecei a voar. voei para a frente a uma velocidade muito grande. parei, flutuando no ar e resolvi subir acima do nível das árvores - eu não falei, mas tinha um monte de árvores - pensando, será que dá pra ver minha casa daqui? subi uns dez metros. esqueci da minha casa, fiquei olhando pro gasômetro, aquela luz avermelhada do pôr do sol. de repente, vem voando em minha direção, quem? o spectraman. ele gritava alguma coisa, em japonês, obviamente. aí, olha só que viagem. eu pensei em gritar pra ele, sai da frente cara! mas eu sabia que tava sonhando e que se gritasse, eu falo e grito dormindo, ia acordar a família inteira, já passava das três da manhã. então eu decidi, vou acordar. spectraman voava na minha frente, com braços estendidos para cima, em formato de vê. acordei, deitado na cama, olhando pra cima. e quem estava no meu quarto? spectraman. na verdade, era o ventilador de teto, duas das pás na posição dos braços do sujeito, e o bojo da lâmpada parecendo a cabeça. por dois segundos, fiquei parado. pirei de vez. não tem mais volta. quando acostumei os olhos com a escuridão, sentei na cama e fiquei rindo sozinho. realmente, não preciso de heavy drugs.