Publicado originalmente no COL 143, em 21/02/2000. Época meio neurótica. Acho que comecei a escrever durante um blecaute em sampa, mas isso pode ser engano. As duas ilustrações são da Cau.
Legumes
Acreditem em mim. Ah, olá, meu nome é Veco. Aliás, meu nome não é Veco, mas as pessoas me chamam assim porque... Porquê porra nenhuma! Não
interessa. O que vocês precisam saber é que eu me chamo Veco e tenho uma história pra contar. É, uma história, com moral e tudo. Mas já que
eu não sou escritor infantil, vou dar a moral (!!! nunca tinha pensado na origem dessa expressão) logo no início. É essa, sempre que vocês tiverem duas escolhas, uma certamente ruim e outra que parece boa, escolham a ruim. E aí, gostaram? Acharam um incentivo ao conformismo? Bom, foda-se, ninguém vai responder, e, se responder, eu nunca vou ouvir. Ah, pensando bem, eu
tenho outra moral para essa história. Mas essa eu conto no final.
Bom, vamos à história, que começou no meu apartamento. Um apê enorme,
no vigésimo primeiro andar de um edifício construído no início dos anos
setentas. Desde essa época, ele foi habitado pela minha tia. Em noventa
e nove, a megera morreu. Chamo de megera, porque quando eu era piá eu
fiquei uma noite na casa dela, porque meus pais tinham que sair e não
havia mais nenhum parente com quem me deixar. A velha fez uma sopa de legumes. Eu nunca gostei de legumes, então tomei o caldo da sopa e botei aqueles pedaços de coisas nojentas
no lixo (é, eu era um guri de cinco, seis anos, mas muito educadinho).
E voltei pra frente da tevê com um caderno e um lápis na mão. Fiquei
ali desenhando. Quando a bruxa viu que os legumes tavam no lixo, ficou possessa. Me deu um puta sermão e me deixou a
noite inteira trancado num quarto escuro. Cada vez que eu começava a
chorar alto ou gritar, ela dava umas porradas na porta, do lado de
fora. Eu pranteei em silêncio até dormir. Na manhã do dia seguinte,
meus pais brigaram com ela e nós nunca mais a vimos.
Meus pais morreram, juntos, uns seis meses antes dela. Como não havia
outros herdeiros, essa porra de apartamento ficou pra mim. Eu fui morar
nele.
Voltemos, então, à história. Eu havia me mudado uns dez dias antes. Já
tinha deixado tudo arrumado. O apê estava perfeito. Eu chamei a Lu pra
conhecer. Lu é a mulher da minha vida. Eu tenho outras, ela tem outros,
mas isso não nos incomoda. Bom, ela foi lá em casa, com um balão desses
prateados que flutuam no ar, no formato do Rei Leão.
Esse foi o primeiro filme, se é que posso chamá-lo de filme, que nós vimos juntos no cinema.
Foi a primeira vez em que nos tocamos. Ela chegou lá em casa com o Rei
Leão e um vinho, eu já tinha preparado a janta e a noite foi perfeita.
Até que eu a convidei pra morar comigo no apê. Porra, a mulher quase
teve um ataque. "Porque tu quer tirar a minha liberdade! Eu tenho minha
vida, cara. Não vou entrar nesse teu esquema de vidinha a dois!"
Tentei argumentar enquanto ela se vestia, mas a mina parecia louca.
Antes de bater a porta, ainda falou "Não adianta, cara. Já fez a
cagada, já era."
Vivi três dias como um zumbi. Passava o tempo inteiro deitado vendo
tevê, levantava, ia na cozinha pra comer, no banheiro pra cagar e mijar
e deitava de novo.
Até que, na terceira noite, ou quarta, incluindo a que ela foi embora,
deu um estouro na rua e faltou luz. "Puta que pariu, a tevê." Acendi
uma vela azul que tinha na sala e fui pra sacada. Em todas as outras
ruas os apartamentos estavam iluminados. "Velha filhadaputa, tinha que
comprar esse muquifo bem nessa porra de rua?, falei. Às vezes, parece
que meus pensamentos só valem se eu os falo. Mesmo que seja falar bem
baixinho, como foi o caso.
Peguei uma cerveja na geladeira, fui pra sala e sentei apoiado na mesa.
Acendi um cigarro. Eu já tinha comido, mas tive uma vontade repentina
de tomar sopa de legumes.
Olhei pra vela. A fumaça do cigarro, na frente da vela, subia reta. Mas
eu sentia um vento, a janela estava aberta. "Tô precisando dum banho."
Fui pro banheiro, deixei a vela em cima da pia de mármore. Entrei no
box e abri a torneira. "Putz, água gelada." Mas era melhor assim. Banho
frio acorda, e, podem ter certeza, dormir era o que eu menos tinha
vontade de fazer naquele instante. Embaixo do chuveiro, fiquei alguns
minutos parado, observand a luz difusa da chama no box de acrílico.
Fechei o chuveiro, me sequei e voltei pra sala. Fiquei sentado no sofá,
pensando como seria bom se eu pudesse ligar o som. Ou se a Lu ligasse.
Gastei uns segundos avaliando o que valia mais pra mim, a Lu ou o som.
Acho que o som estava ganhando, mas parei antes de chegar a uma
conclusão. Na real, eu até podia viver sem a Lu, mas sem música é foda.
Me arrependi de não ter escutado música nos três dias anteriores. Foi
então que vi um vulto se mexendo ao lado do sofá. Pulei para o lado
oposto e paralisei. Fiquei olhando fixo para o lugar, até que apareceu.
Era aquela merda de Rei Leão, já meio murcho, balançando com o vento.
Joguei ele pela janela e voltei ao sofá. "Há, eu sabia. Nem me
assustei", pensei e falei. Nisso, a vela apagou. Já tinha derretido até
o fim. "Não dá nada."
Levantei e entrei no corredor. Eu ia dormir, no dia seguinte a
luz teria voltado e eu ia sair de casa, dar uma volta. Deitei. Súbito,
ouvi um barulho na cozinha. Vesti uma bermuda, uma camiseta e calcei os
chinelos. Cheguei na cozinha e identifiquei o barulho. A pilha de
pratos sujos não deixava dúvida. Eu estava sentindo uma necessidade
urgente de sair daquele apê. Decidi descer os vinte e um andares da
escada para conversar com o porteiro. Se eu ficasse, não ia conseguir
dormir mesmo. Eu tinha plena convicção de que poderia sentir-me melhor
lá embaixo.
Vou me intrometer para explicar que é aqui o ponto da decisão que eu
falei pra vocês. Era certo que ficar no apartamento era ruim. E eu
achava que seria melhor sair. Continuando, saí direto da cozinha, pela
porta dos fundos. Desci dois andares e só então percebi que em nenhum
deles havia portas. Só a escada. "Esses edifícios antigos,
..." Tava muito escuro.
"Meu isqueiro!" Porra, era provável que eu ficasse algumas horas lá
embaixo. Tinha que levar cigarro e isqueiro. E aproveitava pra iluminar
a escada, vai que tem alguma coisa no caminho. Subi dois andares, mas
não tinha mais a porta da minha casa. "Devo ter contado errado." Subi
mais dois andares. Nada de portas. Desci os dois novamente.
"Porra, me perdi." Resolvi descer tudo e esperar. Não tinha mais
ninguém na escada. Só por um momento, senti-me observado. Virei para
trás e parecia que uma senhora me observava. Subi correndo as escadas e
não havia nada. Nem a velha, nem qualquer barulho de passos que
denunciasse haver mais alguém por ali. Continuei
descendo.
Desci. Desci. Já perdera a conta de quantos andares tinha passado.
Cansado, sentei num degrau. Um vento frio bateu nas minhas costas e voltei a descer.
Logo, topei com uma porta. "Ah, o térreo." Cheguei ao saguão do
edifício e a porta fechou atrás de mim. Não havia ninguém no saguão.
Aliás, só havia um caderno e um lápis num canto. E, com exceção da
porta que vinha da escada, não existiam outras saídas. Nem janelas.
Tornei a abrir a porta da escada. Não havia mais escada. Atrás da
porta, uma parede. Pensei em gritar, mas era melhor ficar quieto. Não
quero fazer nenhum barulho. E digo pra vocês, o pior não é estar
confinado neste lugar escuro. O que mais me angustia são duas coisas.
Primeira, não tenho a mínima noção de quanto tempo já fiquei aqui.
Segunda, não sei se estou vivo, morto, dormindo, em coma ou louco. Mas
eu sei de uma coisa. Ah, eu sei. Sei que, amanhã de manhã, meus pais
vão chegar e me tirar daqui.
Antes que eu me esqueça, a segunda moral da história:
SEMPRE COMAM OS LEGUMES DA SOPA.
--Izq—


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