Spectraman

Publicado originalmente no COL 125, em 14/12/1999, baseado em um sonho que eu acho que tive mesmo. A ilustração atual foi feita pela Cau.
spectramanspectraman (é assim que se escreve?)
foi assim. eu tava correndo por uma dessas avenidas, parecia ali onde a bento vira joão pessoa, ou azenha, eu nunca sei. aí eu cheguei em um cruzamento onde passavam vários, milhares de carros. pensei, eu não sei atravessar avenidas. fiquei alguns minutos olhando aquela maré de carros sem saber o que fazer. o fluxo diminuiu e eu me dei conta que era só esperar quando não viessem carros e passar pro outro lado. foi o que eu fiz, mas quando estava no meio do percurso vi um carro de faróis acesos, era um escort antigo, daqueles quadrados, igual ao que eu tive, vindo em minha direção. comecei a correr, o carro passou por trás de mim, sem mais problemas. mas eu não consegui, não queria mais parar de correr. então, ouvi o refrão da bidê ou balde, e por que não?, abri os braços e comecei a voar. voei para a frente a uma velocidade muito grande. parei, flutuando no ar e resolvi subir acima do nível das árvores - eu não falei, mas tinha um monte de árvores - pensando, será que dá pra ver minha casa daqui? subi uns dez metros. esqueci da minha casa, fiquei olhando pro gasômetro, aquela luz avermelhada do pôr do sol. de repente, vem voando em minha direção, quem? o spectraman. ele gritava alguma coisa, em japonês, obviamente. aí, olha só que viagem. eu pensei em gritar pra ele, sai da frente cara! mas eu sabia que tava sonhando e que se gritasse, eu falo e grito dormindo, ia acordar a família inteira, já passava das três da manhã. então eu decidi, vou acordar. spectraman voava na minha frente, com braços estendidos para cima, em formato de vê. acordei, deitado na cama, olhando pra cima. e quem estava no meu quarto? spectraman. na verdade, era o ventilador de teto, duas das pás na posição dos braços do sujeito, e o bojo da lâmpada parecendo a cabeça. por dois segundos, fiquei parado. pirei de vez. não tem mais volta. quando acostumei os olhos com a escuridão, sentei na cama e fiquei rindo sozinho. realmente, não preciso de heavy drugs.

Comments

conto amigo

Lembrei desse meu aqui: Estava em frente à Catedral, balançando as pernas sobre o Eixão, sentando num viaduto. Centenas de carros devem ter passando num espaço de minutos, e a minha única companhia era o vento seco e delicioso dessa cidade. Minha introspecção ia muito bem, mas degringolou quando eu vi a sombra de uma mulher ao meu lado. Assustado, eu saltei e planei sobre o tráfego, numa manobra desajeitada. Mas controlei o vôo e olhei para trás... ela tinha penas enormes de fênix saindo das costas e seus olhos lembravam os de um coelho. Ela me mandou um beijo, que no ar conjurou uma seta.. amendrontado, eu bati minhas asas com força sobre a pista, fugindo daquele projétil de carinho. Quando alcei para além do céu, fui atigindo em cheio. Meu peito sangrou um sangue azulado, com o perfume das minhas paixões, e pela minha consequente morte, voltei à vida solitária do balançar de pernas sobre os fluxos ansiosos do deserto asfáltico. FIM http://imaginarios.net/dpadua/antigos/2004_08_01_contosdogelo_archive.html

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